Exaustão emocional e desigualdade na divisão do trabalho doméstico impactam a saúde mental de milhões de mulheres
O cuidado materno sempre foi romantizado, mas pouco discutido em termos de carga mental e impacto na vida das mulheres. No Brasil, onde 7 em cada 10 mulheres são mães, os desafios enfrentados na maternidade vão além do desgaste físico: há um peso psicológico e social que recai, majoritariamente, sobre elas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE/FGV), 4 em cada 10 mães criam seus filhos sozinhas, o que equivale a 11 milhões de mães solo, sendo 90% delas negras.
Essa desigualdade se reflete na divisão do trabalho doméstico e na criação dos filhos. Enquanto muitas mães precisam conciliar carreira e família, a participação paterna na rotina infantil ainda é reduzida. A maternidade, que deveria ser compartilhada, segue sendo uma jornada solitária para grande parte das mulheres.
O impacto do burnout materno e a negligência social
O burnout materno tem sido identificado como um problema crescente, refletindo o esgotamento extremo das mães. De acordo com um estudo realizado pela plataforma Kiddle Pass em parceria com a B2Mamy, 9 em cada 10 mães já sofreram burnout materno, e entre as que trabalham fora, 68% são afetadas pela Síndrome de Burnout. As mais impactadas são mães de crianças com deficiências físicas, intelectuais e transtornos neurodivergentes, como TEA e TDAH, devido à sobrecarga emocional e à falta de suporte adequado.
A vulnerabilidade das mães não se limita ao aspecto emocional. O contexto socioeconômico também exerce um papel determinante. Entre 2018 e 2021, uma em cada quatro mães em situação de vulnerabilidade apresentou sintomas depressivos no primeiro ou segundo ano pós-parto, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O Instituto Baresi revelou que 78% dos pais abandonaram mães de crianças com deficiência ou doenças raras até os filhos completarem cinco anos, evidenciando a desigualdade na responsabilização pelo cuidado.
A feminização da pobreza também está diretamente relacionada a essa realidade. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que 62,8% das pessoas que vivem em domicílios chefiados por mulheres sem cônjuge e com filhos menores de 14 anos estão abaixo da linha da pobreza. Sem políticas públicas eficazes e sem uma estrutura de apoio consolidada, essas mães enfrentam desafios diários para garantir o sustento e o bem-estar dos filhos.
A necessidade de políticas públicas e o reconhecimento do cuidado materno
Embora o debate sobre a divisão do trabalho doméstico e o impacto da maternidade na vida profissional das mulheres esteja crescendo, as soluções ainda são limitadas. 50% das mães perdem seus empregos até dois anos após a licença-maternidade, conforme estudo da FGV, demonstrando a dificuldade de conciliar maternidade e carreira. Em contrapartida, a participação dos pais na criação dos filhos ainda é desigual: 80% das mães relatam que assumem a maior parte do cuidado com os filhos, enquanto apenas 48% dos pais se envolvem ativamente.
Para aliviar essa sobrecarga, algumas propostas vêm sendo discutidas, como o Projeto de Lei nº 2774/2022, que busca reduzir em 50% a jornada de trabalho para mães de crianças com Síndrome de Down. No entanto, medidas pontuais não são suficientes para solucionar um problema estrutural. A criação de políticas públicas que promovam a equidade no cuidado, além de incentivos para empresas adotarem práticas mais inclusivas para mães, são passos fundamentais para mitigar essa desigualdade.
A psicanalista Vera Iaconelli destaca que a idealização do instinto materno contribui para perpetuar a sobrecarga das mulheres, atribuindo-lhes sozinhas a responsabilidade pela criação dos filhos. Segundo a especialista, essa visão reforça uma lógica mercadológica que individualiza um problema social e desconsidera que a parentalidade deve ser uma responsabilidade compartilhada entre homens, mulheres e o Estado.
Em meio a essa realidade, iniciativas como a HQ “Nos braços dela”, das autoras Bárbara Ipê e Tatiana Achcar, trazem um retrato sensível da sobrecarga enfrentada pelas mulheres no trabalho de cuidado. A obra aborda não apenas a maternidade e a maternidade atípica, mas também o impacto do trabalho de cuidado em áreas como a enfermagem, a educação e o serviço doméstico.
Se a maternidade continuar sendo tratada como uma jornada solitária e invisibilizada, o ciclo de exaustão, pobreza e desigualdade persistirá. Para transformar essa realidade, é necessário um movimento coletivo que valorize o trabalho de cuidado e promova uma divisão mais justa dessa responsabilidade. Afinal, criar e educar uma nova geração não deve ser um fardo exclusivo das mães, mas sim um compromisso compartilhado por toda a sociedade.



