No Brasil, milhares de mulheres e meninas ainda enfrentam desafios diários para acessar itens básicos de higiene menstrual. A falta de absorventes, saneamento adequado e educação sobre o tema compromete a saúde, a dignidade e o pleno exercício da cidadania de brasileiras em situação de vulnerabilidade
Um problema estrutural que persiste
A pobreza menstrual é uma realidade invisível para muitos, mas devastadora para milhões de brasileiras. O termo, que passou a ganhar notoriedade nos últimos anos, refere-se à falta de acesso a produtos de higiene menstrual, saneamento básico, infraestrutura adequada e informação segura sobre o ciclo menstrual. Em 2025, embora avanços legais e políticas públicas tenham sido implementados, a exclusão menstrual segue como um dos mais silenciosos indicadores de desigualdade de gênero, raça e classe social no país.
Segundo levantamento do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), em parceria com o UNICEF e a Plan International, publicado em 2023, uma em cada quatro meninas brasileiras entre 12 e 19 anos já faltou à escola por não ter acesso a absorventes ou condições mínimas de higiene durante o período menstrual. O dado, que escancara a interseção entre pobreza e abandono escolar, permanece estável em comunidades periféricas e rurais, conforme aponta atualização do Observatório da Pobreza Menstrual divulgado em abril de 2025.
Os números da exclusão
Dados oficiais do IBGE indicam que cerca de 4 milhões de brasileiras em idade menstrual vivem em domicílios sem acesso a banheiro exclusivo ou saneamento básico adequado. A ausência de água tratada, coleta de esgoto e espaços seguros para higiene pessoal afeta principalmente mulheres negras, indígenas e ribeirinhas.
A PNAD Contínua (2024) mostra ainda que 32% das adolescentes em situação de vulnerabilidade social no Brasil não têm acesso contínuo a produtos menstruais, o que as obriga a recorrer a alternativas insalubres, como pedaços de pano, jornal, miolo de pão ou papelão, com riscos significativos à saúde ginecológica.
Estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) demonstram que a pobreza menstrual está diretamente relacionada ao aumento de infecções urinárias, vaginoses bacterianas e absenteísmo escolar e profissional, especialmente entre jovens em idade fértil.
A resposta política e os desafios da implementação
A aprovação da Lei 14.214/2021, que institui o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, foi um marco histórico na luta contra a pobreza menstrual no Brasil. A legislação prevê a distribuição gratuita de absorventes para estudantes de baixa renda, pessoas em situação de rua e população carcerária, bem como a promoção de campanhas educativas sobre o tema.
Em 2024, o programa passou a ser executado em 25 estados brasileiros, mas enfrenta entraves logísticos, orçamentários e políticos. Segundo o Ministério da Saúde, apenas 58% dos municípios brasileiros haviam aderido plenamente ao programa até março de 2025, e muitos relataram falta de estrutura para garantir distribuição contínua e fiscalização do acesso.
Outro ponto crítico é a escassez de dados desagregados por sexo, idade, região e cor/raça, o que dificulta o monitoramento da eficácia das políticas públicas e a formulação de estratégias intersetoriais de longo prazo.
Educação menstrual e quebra de tabus
Mais do que um problema de acesso a produtos, a pobreza menstrual também é um reflexo do tabu cultural que ainda envolve a menstruação. De acordo com pesquisa da Girl Up Brasil (2023), 68% das adolescentes brasileiras relataram sentir vergonha ao falar sobre menstruação em espaços públicos ou na escola, e 43% disseram já ter sido alvo de piadas ou constrangimentos por menstruarem.
A ausência de educação menstrual adequada nas escolas perpetua o ciclo de desinformação, silêncio e estigmatização. Especialistas em saúde pública alertam que a inserção de conteúdos sobre menstruação nos currículos escolares é fundamental para desconstruir mitos, promover a saúde sexual e reprodutiva e empoderar meninas e adolescentes desde cedo.
O Plano Nacional de Educação 2024–2034, recentemente atualizado, contempla diretrizes para o fortalecimento da educação em saúde, mas ainda depende da articulação com estados e municípios para que chegue às salas de aula com qualidade.
Caminhos para romper o ciclo da exclusão
Combater a pobreza menstrual exige mais do que a distribuição de absorventes. Requer investimentos estruturais em saneamento básico, educação pública de qualidade, acesso universal à saúde e políticas públicas com recorte de gênero e raça.
Organizações da sociedade civil e movimentos de juventude vêm desempenhando papel fundamental na construção de alternativas, como a distribuição de coletores menstruais reutilizáveis, produção de absorventes ecológicos e capacitação de educadores em saúde menstrual. No entanto, a responsabilidade de enfrentar essa realidade é do Estado, que deve garantir o direito à dignidade, à educação e à saúde para todas as mulheres.
Em pleno 2025, não menstruar com dignidade ainda é um privilégio no Brasil. Enquanto milhões de meninas e mulheres seguem abandonadas à própria sorte, a sociedade precisa decidir se continuará tratando a menstruação como um tabu ou como uma questão de justiça social.
Romper com esse ciclo de exclusão é reconhecer que a menstruação não é problema individual, mas uma questão pública, estrutural e urgente. Em vez de silêncio, é preciso informação. Em vez de vergonha, políticas concretas. E em vez de invisibilidade, compromisso coletivo com a dignidade de todas.



