No aniversário da Proclamação da República, o Brasil encara uma verdade incômoda: só existe República onde existe participação, consciência e responsabilidade coletiva
O 15 de Novembro costuma passar cercado de cerimônias, discursos protocolares e bandeiras ao vento. É o tipo de data que enche calendários escolares, mas raramente enche a reflexão nacional. Celebramos, mas pouco pensamos. Relembramos, mas pouco questionamos. E, exatamente por isso, este é o dia ideal para fazermos o que menos fazemos: encarar de frente o país que somos — e o país que fingimos ser.
A República, proclamada em 1889, não foi um gesto romântico, tampouco um consenso popular. Nasceu dentro de quartéis, longe da participação do povo, impulsionada por interesses específicos de uma elite que buscava reorganizar o poder. Foi uma ruptura histórica, mas não foi uma revolução social. O povo brasileiro, tão invocado em discursos e documentos oficiais, não estava nas decisões, nas mesas ou nos bastidores. E a ausência inicial continua a cobrar seu preço.
Mesmo assim, seria simplista reduzir a República a seu nascimento conturbado. O Brasil republicano atravessou transformações profundas — e, muitas vezes, conquistadas à força de mobilização social, suor e sacrifício. Não foram os poderosos que deram significado à palavra “República”; foi a própria população. O voto secreto, a Constituição de 1988, o avanço das liberdades civis, a democratização da imprensa, os movimentos estudantis, os coletivos culturais, a força das periferias, a organização das mulheres, da juventude, dos trabalhadores: foi a sociedade que insistiu em dar vida àquilo que o Estado não entregava por vontade própria.
Hoje, porém, nos deparamos com um paradoxo inquietante: nunca tivemos tantas instituições, tantos mecanismos democráticos, tantos canais de participação — e, ao mesmo tempo, nunca vimos tamanha distância entre o cidadão e a política. O ideal republicano está ameaçado não apenas pelos ataques explícitos, mas também pela apatia coletiva. Por um sentimento paralisante de que “nada muda”, de que “todos são iguais”, de que “não adianta participar”. É exatamente esse cansaço cívico que corrói a República por dentro.
Não há República viva onde há descrença absoluta.
Não há República forte onde os interesses privados se sobrepõem ao interesse público.
Não há República plena onde a desigualdade, o racismo, a violência e a fome permanecem como cicatrizes permanentes.
É preciso dizer com todas as letras: o ideal republicano não sobrevive sozinho. Ele depende de escolhas diárias — nossas escolhas. Depende de pequenas atitudes que não saem no jornal, mas moldam o tecido moral da sociedade: respeitar o espaço público, participar do debate sem violência, cobrar coerência dos governantes, reconhecer a dignidade do outro, entender que política não é guerra, mas contrato.
Se hoje perguntamos se o ideal republicano ainda vive, é porque reconhecemos que ele está sendo testado. Testado pela polarização tóxica, pelo individualismo agressivo, pela disputa por narrativas que substituiu o debate por gritos. Testado pela desinformação, que banaliza a verdade e empobrece o pensamento crítico. Testado pela impaciência histórica de um país que sempre tenta saltar etapas sem encarar suas feridas.
Por outro lado, há motivos reais para acreditar que esse ideal não está morto. Ele respira cada vez que um jovem escolhe estudar política, não para brigar, mas para compreender. Respira nos movimentos comunitários que constroem cidadania onde o Estado falha. Respira nos profissionais que mantêm a ética mesmo quando ninguém observa. Respira na imprensa local — como a nossa — que insiste em fiscalizar, ouvir, informar e fomentar reflexão, mesmo quando isso significa contrariar interesses.
O ideal republicano vive porque ainda há brasileiros que se recusam a desistir dele. Vive porque há cidadãos que entendem que República não é apenas um regime — é um compromisso. É a afirmação de que ninguém está acima da lei. De que o poder deve servir, não se servir. De que liberdade exige responsabilidade. De que o bem comum não é uma figura retórica, mas um projeto viável.
Este 15 de Novembro não deveria ser apenas uma memória escolar, um feriado que se perde em meio a churrascos e descanso. Deveria ser um chamado. Um convite à introspecção coletiva. Um lembrete de que o país que teremos depende do país que estamos dispostos a construir — e não há construção possível sem participação, sem vigilância e sem coragem cívica.
A pergunta permanece: o ideal republicano ainda vive?
A resposta, por mais dura que seja, ainda pode ser otimista: sim, ele vive.
Mas não vive por inércia.
Vive porque precisa de nós — todos os dias.
E, se quisermos que esse ideal sobreviva às próximas décadas, precisamos fazer mais do que celebrar datas. Precisamos assumir o papel que nos cabe desde 1889 e que, tantas vezes, foi ignorado: o papel de protagonistas da própria República.



