É com o estômago revirado e a alma inquieta que nos sentamos para escrever este editorial. O final de semana trouxe novamente à tona o retrato da brutalidade que se repete, impiedosa, contra as mulheres brasileiras. No Rio de Janeiro, uma jovem foi espancada por seu companheiro dentro de um elevador. Sessenta e um socos. Sessenta e um. O rosto da vítima foi desfigurado. E, como em tantas outras ocasiões, a justificativa veio rápida: o agressor estaria em “surto” por claustrofobia, alegando ainda ser autista.
Se o crime é brutal, a reação da sociedade, por vezes, é ainda mais cruel — relativizações, desculpas, comentários misóginos, tentativas de justificar o injustificável. Mas é preciso dizer com clareza: nenhuma condição clínica ou psicológica explica ou isenta um ato de tamanha violência. Surto ou não, não se bate em mulher. Não se esmurra um rosto até ele deixar de ser reconhecível. O que vemos não é um caso isolado, é um reflexo do que a sociedade ainda permite que se perpetue: o machismo estrutural e a cultura do silêncio.
Esse é apenas um caso entre tantos que se acumulam todos os dias nas delegacias, nas redes sociais e nos necrotérios. Rodando por essas mesmas redes, é impossível não se deparar com vídeos de mães em desespero, gritando com seus próprios filhos que estupraram e assassinaram mulheres da família. Ou com relatos ainda mais chocantes, como o de um filho que matou a própria mãe por ela ter se negado a pagar suas dívidas de apostas — um assassinato frio, encenado para parecer tentativa de abuso sexual.
É inevitável perguntar: onde erramos como sociedade? Onde se perdeu o senso de humanidade? O que temos feito — ou deixado de fazer — para permitir que esse tipo de violência se repita sem fim, ano após ano, década após década?
O problema, sabemos, é multifatorial: ausência de políticas públicas efetivas, deficiências no sistema educacional, impunidade crônica, desigualdade social, masculinidade tóxica alimentada desde a infância, desinformação e banalização da violência. A cultura do medo, do silêncio e da omissão é nutrida por cada piada machista, por cada denúncia ignorada, por cada autoridade que se recusa a agir com rigor.
Mas há algo ainda mais grave: a indiferença. Quando os casos se tornam “comuns”, quando deixamos de nos indignar, quando passamos os vídeos adiante sem refletir, estamos normalizando o inaceitável. E é justamente essa normalização que fortalece a perpetuação da violência.
Como imprensa livre e apartidária, o Jornal O Defensor tem o dever de provocar essa reflexão. Não nos cabe apenas relatar os fatos — mas questioná-los, interpretá-los e gritar quando o silêncio se torna cúmplice. É preciso dar nome ao problema: feminicídio. Violência doméstica. Cultura patriarcal.
O caminho para um mundo mais seguro e justo é longo, e passa necessariamente pela denúncia, pela escuta, pela educação e pela responsabilização. Não basta prender depois que a tragédia acontece. É preciso prevenir, acolher, proteger, punir e, acima de tudo, reeducar.
Aos que leem este texto, deixamos um convite à ação: repensem os comportamentos, denunciem abusos, apoiem vítimas, eduquem suas crianças com empatia e igualdade. Às instituições, exigimos compromisso. Às vítimas, nossa solidariedade.
Até quando veremos mulheres sendo espancadas? Esperamos, sinceramente, que a resposta não seja para sempre.



