domingo, 7 junho, 2026

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Julho das Pretas: Vozes femininas negras que constroem o Brasil invisível

Enquanto o Brasil celebra avanços em políticas de diversidade e inclusão, mulheres negras seguem enfrentando as maiores barreiras sociais, econômicas e institucionais. No mês em que se celebra o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, dados revelam uma realidade de exclusão estrutural e resistência silenciosa.

Invisibilidade que resiste ao tempo

O mês de julho carrega um marco de consciência e memória coletiva para as mulheres negras brasileiras: o dia 25 de julho, instituído oficialmente no Brasil como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, é também reconhecido internacionalmente como o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data nasceu em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, e desde então é símbolo de luta por visibilidade, dignidade e equidade racial e de gênero.

No entanto, três décadas após o encontro que originou a efeméride, a situação das mulheres negras no Brasil permanece marcada por desigualdades profundas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mulheres negras representam 28% da população brasileira, mas continuam sendo o grupo com maior vulnerabilidade social, menor acesso à educação, piores salários e maior exposição à violência.

Trabalho e renda: a desigualdade crônica

O mercado de trabalho brasileiro continua reproduzindo as hierarquias raciais e de gênero. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD/IBGE, 2024) apontam que, mesmo exercendo funções equivalentes, mulheres negras recebem em média 44% menos que homens brancos e 27% menos que mulheres brancas.

Além disso, elas são maioria nas ocupações mais precarizadas da economia, como trabalho doméstico, serviços gerais e cuidado informal — segmentos com alta rotatividade, baixos salários e quase nenhum direito trabalhista garantido. A informalidade atinge mais de 46% das mulheres negras economicamente ativas, o que agrava a insegurança financeira e o acesso a benefícios previdenciários e à aposentadoria.

No setor público, os dados também evidenciam sub-representação: menos de 6% dos cargos de liderança no funcionalismo federal são ocupados por mulheres negras, segundo o Painel de Diversidade do Governo Federal (2023), mesmo elas sendo maioria entre as mulheres com diplomas universitários emitidos por instituições públicas nos últimos anos.

Educação e mobilidade social: os entraves invisíveis

A educação é comumente tratada como uma ferramenta de transformação, mas nem sempre garante a mobilidade social esperada para mulheres negras. Segundo dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), o número de jovens negras no ensino superior aumentou nos últimos 15 anos, sobretudo após a adoção das cotas raciais, mas a evasão também é mais alta entre alunas negras de baixa renda, em razão da necessidade de conciliar trabalho e estudo ou por falta de apoio psicossocial e financeiro.

Mesmo as que conseguem concluir o ensino superior enfrentam barreiras de acesso a oportunidades qualificadas. Estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que mulheres negras formadas enfrentam maior dificuldade para inserção em áreas como direito, tecnologia, medicina e comunicação, quando comparadas às mulheres brancas.

Violência de gênero e racismo: a dupla vulnerabilidade

A violência é uma das faces mais perversas da desigualdade vivida por mulheres negras. Dados do Atlas da Violência (IPEA/FBSP, 2024) mostram que 66% das mulheres vítimas de homicídio no Brasil são negras, número que cresce proporcionalmente em regiões periféricas e zonas rurais.

Além da violência letal, o racismo institucional compromete o acesso a mecanismos de proteção. Uma mulher negra tem menos chance de ser acolhida de forma digna em delegacias da mulher, ter suas denúncias levadas a sério ou receber medidas protetivas com agilidade, conforme alertam relatórios do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.

O racismo obstétrico também segue em pauta: mulheres negras têm três vezes mais chances de morrer durante o parto ou no puerpério, de acordo com o Ministério da Saúde, índice associado à demora no atendimento, negligência médica e falta de escuta durante o pré-natal.

Cultura, política e o direito de existir com dignidade

Apesar dos obstáculos, mulheres negras constroem diariamente formas de resistência e afirmação nos campos da cultura, política, educação e empreendedorismo. Dados do SEBRAE (2024) revelam que mais de 2,5 milhões de empreendedoras negras mantêm negócios próprios, muitas vezes como forma de driblar o desemprego estrutural. No entanto, menos de 9% delas acessam linhas de crédito formais, o que evidencia barreiras no sistema bancário e falta de políticas específicas de fomento.

Na política institucional, a sub-representação é ainda mais grave: em 2022, apenas 29 das 513 deputadas federais eleitas se autodeclararam negras, e nenhuma mulher negra chegou ao Senado naquele pleito, conforme apurado pelo TSE.

Em termos simbólicos, o movimento Julho das Pretas cumpre o papel de denunciar essa ausência histórica e fortalecer redes de cuidado, formação e protagonismo coletivo. Ao unir dados, memória e articulação social, o mês de julho torna-se um espaço de reconstrução da narrativa nacional a partir de vozes que, por séculos, foram silenciadas.

O Brasil de 2025 ainda deve muito às suas mulheres negras. Mais que datas comemorativas, é necessário reconhecer que as estruturas sociais, econômicas e políticas seguem moldadas para excluir quem mais construiu este país com o corpo e com o trabalho.

Transformar essa realidade exige políticas públicas reparatórias, mudanças culturais profundas e a ocupação dos espaços de poder por mulheres negras em toda sua diversidade. O Julho das Pretas não é apenas um mês de visibilidade — é um chamado urgente à ação, à escuta e ao compromisso com um país verdadeiramente plural e justo.