quarta-feira, 10 junho, 2026

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Crônicas: Assim como Sísifo fomos condenados à performance

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há um cansaço moderno que não aparece nas radiografias. Ele não deixa hematomas, mas pesa nos ombros como uma mochila cheia de relógios. Acordamos já atrasados para algo que nem sabemos exatamente o que é. O celular desperta antes da alma, e a primeira notícia do dia quase sempre nos lembra que precisamos produzir mais, sorrir mais, vencer mais. O filósofo Byung-Chul Han chamou isso de “sociedade do desempenho”: não somos mais obrigados pela força, mas pela autocobrança. Tornamo-nos patrões de nós mesmos e, curiosamente, também nossos escravos.

No entanto, em meio a essa fadiga coletiva, há sempre alguém vendendo fórmulas de superação em vídeos de quinze segundos. “Você consegue!”, “Basta acreditar!”, “Durma menos e trabalhe mais!”. O discurso motivacional moderno parece ignorar que nem toda exaustão se resolve com frases de efeito. Zygmunt Bauman já dizia que vivemos tempos líquidos, nos quais tudo escorre depressa demais: relações, empregos, sonhos e até a nossa estabilidade emocional. O problema é que tentamos nadar nessa liquidez carregando pedras nos bolsos.

Talvez seja por isso que tanta gente se identifique com a melancolia presente nas canções brasileiras. Em “Cotidiano”, de Chico Buarque, o dia se repete como uma engrenagem cansada: acordar, trabalhar, voltar, dormir. Há uma poesia dolorosa em perceber que o ser humano contemporâneo vive cercado por tecnologia, mas ainda preso a rotinas quase mecânicas. O Romantismo literário idealizava o indivíduo livre; já o Realismo, com autores como Machado de Assis, parecia prever nossa ironia moderna: fingimos controle enquanto a vida nos conduz silenciosamente.

Nas redes sociais, o cansaço virou estética. Pessoas publicam fotos de cafés, agendas lotadas e frases sobre produtividade como quem exibe medalhas de guerra. Há uma glamourização do esgotamento. Trabalhar até adoecer virou sinônimo de comprometimento. Descansar parece culpa. A filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre afirmava que somos condenados à liberdade; hoje, talvez estejamos condenados à performance. Precisamos performar felicidade, eficiência, autocuidado e sucesso ao mesmo tempo.

E então surge o velho mantra contemporâneo: “Você precisa se superar”. A frase parece bonita até descobrirmos que ela raramente vem acompanhada de empatia. Superar-se virou obrigação moral. Não basta sobreviver; é preciso prosperar de maneira extraordinária. Quem desacelera é visto como fraco. O Naturalismo literário acreditava que o homem era moldado pelas pressões do meio; basta olhar ao redor para perceber que nossa sociedade fabrica ansiedade em escala industrial. A superação virou produto de mercado.

Ainda assim, existe uma diferença profunda entre evolução e violência contra si mesmo. Crescer não deveria significar esmagar a própria humanidade. Há uma sabedoria silenciosa em reconhecer limites. O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu que “no meio do caminho tinha uma pedra”; hoje, às vezes, sentimos que o caminho inteiro virou pedra. E talvez o maior ato de coragem contemporânea seja admitir o cansaço sem sentir vergonha dele.

Ao mesmo tempo, não se pode negar que o ser humano possui uma impressionante capacidade de reconstrução. Basta lembrar dos professores que chegam exaustos em casa e ainda corrigem provas de madrugada; das mães que trabalham o dia inteiro e continuam sustentando emocionalmente uma família inteira; dos jovens que estudam em ônibus lotados enquanto escutam promessas de um futuro melhor. Existe heroísmo nas pequenas persistências diárias. Não aquele heroísmo cinematográfico, mas o heroísmo silencioso de quem continua mesmo cansado.

A literatura modernista brasileira compreendeu isso muito bem. Graciliano Ramos retratou personagens esmagados pela realidade, mas ainda humanos em sua resistência. Em “Vidas Secas”, sobreviver já era uma forma de luta. Hoje, nossas secas talvez sejam emocionais: excesso de informação, excesso de comparação, excesso de cobrança. E, paradoxalmente, falta de pausa, falta de silêncio, falta de presença.

Há dias em que a superação não será correr uma maratona emocional, mas simplesmente levantar da cama. A lógica do coaching contemporâneo vende a ideia de que precisamos ser versões melhores de nós mesmos todos os dias. Contudo, a vida real nem sempre funciona em linha reta. Às vezes, melhorar significa apenas não desistir. A música “Tocando em Frente”, de Almir Sater, talvez compreenda mais sobre a existência do que muitos discursos empresariais: “Ando devagar porque já tive pressa”. Existe maturidade em diminuir o ritmo.

A atualidade insiste em nos acelerar. Inteligências artificiais, algoritmos, produtividade contínua, notificações incessantes e comparações digitais transformaram o descanso em luxo psicológico. O filósofo Byung-Chul Han alerta que o excesso de positividade também adoece: a obrigação de estar sempre motivado destrói a capacidade humana de contemplação. Talvez por isso tanta gente esteja cansada mesmo sem ter carregado peso algum. O esgotamento moderno é invisível, mas profundamente coletivo.

No fim, talvez a verdadeira superação não esteja em fazer mais, mas em reaprender a existir sem se destruir. Talvez vencer não seja ultrapassar todos os limites, mas reconhecer quais limites nos mantêm vivos. Entre a cobrança da sociedade líquida de Zygmunt Bauman e a exaustão da sociedade do desempenho de Byung-Chul Han, seguimos tentando encontrar equilíbrio. E enquanto o mundo exige velocidade, talvez o maior gesto revolucionário seja respirar fundo, continuar caminhando e compreender que ser humano nunca significou ser máquina.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.