Por: Sérgio Sant’Anna*
O professor carrega sonhos, preocupações e uma esperança quase teimosa de que a educação ainda possa transformar vidas. Mas, por trás dos sorrisos e da rotina aparentemente comum, existe um pedido de socorro que a sociedade insiste em não ouvir.
O filósofo grego Aristóteles afirmava que “a educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces”. O problema é que, no Brasil, muitos parecem desejar apenas os frutos, esquecendo-se de cuidar das raízes. Exige-se que o professor forme cidadãos críticos, éticos e preparados para o futuro, mas raramente se oferece a ele as condições necessárias para cumprir essa missão.
Os baixos salários transformaram-se em uma ferida antiga. Muitos docentes precisam enfrentar jornadas duplas ou triplas para garantir uma vida minimamente digna. Enquanto outras profissões recebem reconhecimento proporcional à sua importância social, o professor frequentemente é tratado como alguém que deveria trabalhar por vocação apenas, como se contas, aluguel e alimentação pudessem ser pagos com idealismo.
Paulo Freire, patrono da educação brasileira, escreveu que “a educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Entretanto, parece que esquecemos de valorizar justamente aqueles que ajudam a promover essa mudança. O discurso político costuma exaltar a educação em épocas eleitorais, mas, terminado o período das promessas, muitos educadores retornam ao velho cenário de abandono.
A falta de reconhecimento não vem apenas dos governos. Ela também se manifesta no cotidiano, quando parte da sociedade reduz o trabalho docente a algumas horas em sala de aula, ignorando as noites gastas corrigindo redações, preparando atividades, estudando novos métodos e tentando compreender as dificuldades de cada estudante.
Há ainda a dolorosa ausência de empatia de muitos pais. Antigamente, quando um professor chamava a família para conversar sobre o comportamento de um aluno, a preocupação principal era encontrar soluções. Hoje, não raramente, o docente se vê colocado no banco dos réus. O educador aponta um problema; a família responde com acusações. O aluno erra; o professor é responsabilizado.
Essa inversão de valores produz consequências visíveis dentro da sala de aula. Muitos estudantes chegam sem disposição para aprender, convencidos de que o conhecimento é menos interessante do que a próxima notificação do celular. A leitura tornou-se concorrente das telas, e a concentração, um recurso cada vez mais raro. O professor luta contra um adversário invisível que cabe no bolso e monopoliza a atenção de milhões de jovens.
O escritor brasileiro Monteiro Lobato dizia que “um país se faz com homens e livros”. Talvez ele se assustasse ao perceber quantos livros permanecem fechados enquanto as telas permanecem acesas. A escola continua tentando construir pontes para o conhecimento, mas frequentemente encontra alunos que não desejam atravessá-las.
O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu a modernidade líquida como um tempo de relações frágeis e descartáveis. Em muitos aspectos, a relação entre aluno e conhecimento também se tornou líquida. Busca-se a resposta rápida, o resumo instantâneo, a aprovação sem esforço. O processo de aprender, que exige paciência e persistência, parece incompatível com a cultura da velocidade.
Enquanto isso, os professores seguem resistindo. São eles que permanecem após o sinal, que escutam desabafos, que percebem problemas familiares, que identificam talentos escondidos e que, muitas vezes, exercem funções que ultrapassam em muito a sua formação profissional. São educadores, psicólogos improvisados, mediadores de conflitos e, em alguns casos, a única referência de estabilidade na vida de determinados alunos.
A música brasileira também já retratou essa sensação de luta contínua. Quando Gonzaguinha escreveu “viver e não ter a vergonha de ser feliz”, parecia descrever a coragem diária daqueles que insistem em educar apesar das dificuldades. E quando Cazuza cantou que “o futuro repete o passado”, muitos professores talvez tenham reconhecido a repetição das mesmas promessas e dos mesmos problemas atravessando décadas.
O pedido de socorro dos docentes não é um pedido individual. Trata-se de um alerta coletivo. Quando um professor perde a motivação, não é apenas um profissional que sofre; é toda uma geração que perde oportunidades. Quando a educação é negligenciada, o preço é pago por toda a sociedade, ainda que seus efeitos só apareçam anos depois.
Talvez tenha chegado a hora de ouvirmos esse grito silencioso que ecoa nas salas de aula brasileiras. Valorizar o professor não é um favor, nem um gesto de caridade. É um investimento na própria sociedade. Afinal, como lembrava Paulo Freire, ninguém educa ninguém sozinho; educamo-nos em comunhão. E uma nação que abandona seus professores corre o risco de abandonar também o seu próprio futuro.



