Por: Sérgio Sant’Anna*
Há quem acorde para cumprir expediente. Há quem desperte para cumprir uma vocação. O professor, quando ainda preserva o brilho nos olhos, pertence à segunda espécie. Ensinar é um verbo que pulsa. É um encontro diário com a esperança, mesmo quando o salário desanima, a burocracia sufoca e a sociedade parece não compreender que nenhuma profissão nasce sem antes passar pelas mãos de um docente. Como escreveu Paulo Freire: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” Eis o verdadeiro tesão do magistério: ver alguém descobrir que é capaz.
Há uma alegria quase inexplicável quando um aluno compreende aquilo que parecia impossível minutos antes. É um instante silencioso, invisível às estatísticas e aos relatórios oficiais, mas imenso para quem vive a sala de aula. Fernando Pessoa dizia que “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” Talvez seja exatamente isso. A alma do professor precisa ser enorme para continuar acreditando no poder transformador da educação em tempos que insistem em medir tudo pelo lucro.
O sistema contabiliza índices, gráficos e metas; o professor contabiliza olhares, descobertas e sonhos. A lógica do mercado pergunta quanto custa um docente. A lógica da humanidade deveria perguntar quanto custa viver sem ele. Aristóteles afirmava que “As raízes da educação são amargas, mas seus frutos são doces.” Infelizmente, muitos querem apenas colher os frutos, esquecendo-se de cuidar das raízes.
Há uma contradição que dói. Todos dizem que a educação é o caminho, mas poucos caminham ao lado de quem ensina. O professor tornou-se alvo fácil de críticas, responsabilizado pelos fracassos de uma sociedade que frequentemente lhe nega condições dignas de trabalho. Enquanto isso, ecoam os versos de Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz.” Ensinar continua sendo um ato de coragem e, sobretudo, de resistência.
Quem nunca lecionou talvez não compreenda a adrenalina de preparar uma boa aula, a expectativa diante de uma turma nova, o prazer de encontrar exemplos capazes de despertar curiosidade. Existe um tesão intelectual em construir pontes entre o desconhecido e o conhecimento. Nietzsche escreveu: “Torna-te quem tu és.” O professor passa a vida ajudando outras pessoas justamente a descobrir quem podem ser.
Há dias em que tudo parece conspirar contra. A desvalorização salarial, o excesso de cobranças, a violência simbólica e, por vezes, física, fazem da docência uma profissão exausta. Ainda assim, quando a porta da sala se fecha e a aula começa, algo renasce. Como canta Milton Nascimento em Coração de Estudante: “Quero falar de uma coisa, adivinha onde ela anda…” Essa coisa talvez seja a esperança, que insiste em morar dentro de quem acredita na educação.
Rubem Alves costumava lembrar que ensinar é um exercício de imortalidade. O professor permanece vivendo nas palavras, nos gestos e nas escolhas daqueles que passaram por sua sala. Não existe reconhecimento financeiro capaz de substituir o momento em que um ex-aluno diz: “Foi você quem mudou a minha vida.” É uma riqueza que nenhum contracheque consegue medir.
Entretanto, romantizar a profissão seria uma injustiça. Amor pela docência não paga contas, não substitui políticas públicas sérias, nem elimina o desgaste emocional. A paixão pelo ensino precisa caminhar ao lado do respeito institucional. Como advertia Immanuel Kant: “O homem não pode tornar-se homem senão pela educação.” Se isso é verdadeiro, desprezar o professor é desprezar o próprio futuro da humanidade.
Talvez por isso continue fazendo tanto sentido ouvir Belchior cantar: “Apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos…” O professor permanece ali, reinventando-se, estudando, planejando, acreditando. Não porque seja ingênuo, mas porque sabe que cada aula pode ser uma pequena revolução silenciosa.
Ser professor, afinal, é experimentar diariamente o tesão de plantar árvores sabendo que, muitas vezes, será outra geração quem descansará sob sua sombra. É amar um trabalho que o sistema frequentemente menospreza e que parte da sociedade insiste em desvalorizar. Mas é também compreender, como escreveu Guimarães Rosa, que “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.” Talvez seja esse o maior privilégio da docência: ensinar enquanto se aprende, resistir enquanto se sonha e transformar vidas mesmo quando o mundo parece esquecer o valor de quem dedica a própria existência à educação.
*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



