quinta-feira, 2 abril, 2026

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Crônica: Escrever a melhor redação exige…

Por: Sérgio Sant’Anna*

Escrever a melhor redação nunca foi apenas um exercício de técnica; é, antes, um gesto de existência. Quando o estudante se senta diante da folha em branco, revive, sem saber, o drama de René Descartes ao duvidar de tudo — inclusive de si mesmo — até encontrar uma certeza possível: a de que pensa e, portanto, pode escrever. A redação nasce, assim, desse primeiro enfrentamento entre o medo e a linguagem, entre o silêncio e a necessidade de dizer.

Há quem acredite que escrever bem é dom, mas Machado de Assis já nos ensinava, em obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, que o domínio da palavra exige ironia, observação e, sobretudo, reescrita. O melhor texto não surge pronto; ele é lapidado como uma escultura, em que cada frase precisa encontrar seu lugar exato, sem excessos nem ausências.

A boa redação também dialoga com o mundo. Nesse sentido, ecoa o alerta de George Orwell em 1984: a linguagem pode ser instrumento de manipulação ou de libertação. Quem escreve precisa ter consciência de que cada palavra carrega uma intenção, um peso ideológico, uma responsabilidade ética. Escrever bem é, portanto, escrever com lucidez. Mas não basta pensar; é preciso sentir. Clarice Lispector, em A Hora da Estrela, revela que a palavra mais potente é aquela que nasce do incômodo, da inquietação, daquilo que não se resolve facilmente. A melhor redação não é apenas correta — é viva, pulsa, incomoda, faz o leitor permanecer.

Além disso, há uma arquitetura invisível que sustenta o texto. Aristóteles, ao tratar da retórica, já apontava a importância da organização do discurso: introdução, desenvolvimento e conclusão não são meras formalidades, mas caminhos para conduzir o leitor. Uma redação excelente é aquela que guia, que persuade sem impor, que constrói sentido de forma gradual e consistente.

Entretanto, escrever bem é também um ato social. Paulo Freire lembrava que a linguagem é prática de liberdade. Assim, a redação ultrapassa os limites da prova: ela se torna um espaço de posicionamento, de leitura crítica da realidade, de intervenção no mundo. Quem escreve não apenas responde a um tema — responde ao seu tempo.

E, curiosamente, a melhor redação é aquela que não teme o erro inicial. Como em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, há certa loucura necessária no ato de escrever: acreditar que, mesmo diante de gigantes — ou moinhos —, vale a pena insistir. O rascunho imperfeito é o primeiro passo para a construção de algo significativo.

No fim, a melhor redação não é a mais rebuscada, nem a mais longa, mas aquela que consegue unir pensamento, sensibilidade e forma. Ela é, ao mesmo tempo, razão cartesiana, ironia machadiana, crítica orwelliana e inquietação clariceana. Escrever bem, afinal, é transformar a palavra em ponte — entre o eu e o outro, entre o mundo e aquilo que ainda pode ser dito.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.