terça-feira, 21 julho, 2026

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Crônica: Arremesso de opinião

Por: Sérgio Sant’Anna*

Dizem que conversar é uma arte. Se for, estamos diante de uma geração que vendeu o pincel para comprar um megafone. Hoje, ninguém conversa. Cada um chega com o discurso pronto, o dedo apontado e a estranha esperança de convencer alguém sem antes descobrir o que esse alguém pensa. É uma modalidade esportiva nova: o arremesso de opinião.

Outro dia fiquei observando duas pessoas numa cafeteria. Estavam frente a frente durante quase uma hora. Pensei: “Finalmente alguém ainda conversa.” Engano meu. Cada uma olhava para a tela do celular. Talvez estivessem discutindo por mensagens. Seria coerente com o nosso tempo.

Imagino Sócrates passeando por uma dessas redes sociais. Não duraria uma manhã. Na primeira pergunta — “Mas o que você quer dizer exatamente com isso?” — seria acusado de provocar, cancelar tradições, desrespeitar opiniões ou pertencer a alguma conspiração filosófica internacional. A maiêutica perderia para a caixa de comentários.

O curioso é que Sócrates fazia justamente o contrário do que fazemos hoje. Ele perguntava porque sabia que não sabia tudo. Nós respondemos antes mesmo de entender a pergunta, justamente porque acreditamos saber tudo. Evoluímos bastante. Pelo menos em velocidade.

Hannah Arendt dizia que a violência aparece quando o diálogo desaparece. Basta assistir a uma discussão qualquer, seja na política, no futebol ou no grupo da família, para perceber que ela tinha razão. A conversa começa com um “na minha opinião” e termina com alguém saindo do grupo ou prometendo nunca mais aparecer no almoço de domingo.

Jürgen Habermas acreditava que a sociedade se fortalece quando as pessoas buscam entendimento por meio da comunicação. Talvez ele não conhecesse as caixas de comentários da internet. Ali, o entendimento costuma tirar férias prolongadas, enquanto a ironia agressiva faz plantão vinte e quatro horas por dia.

Paulo Freire insistia que o diálogo é um encontro entre pessoas que desejam transformar o mundo. Parece uma ideia simples, mas exige uma habilidade quase em extinção: ouvir. Descobrimos que escutar dá trabalho. Muito mais fácil é esperar o outro terminar apenas para dizer que ele está completamente errado.

Machado de Assis provavelmente observaria tudo isso com aquele sorriso discreto que reservava às vaidades humanas. Brás Cubas talvez criasse um perfil em alguma rede social apenas para provar que um defunto autor ainda conseguiria participar de discussões infinitas sem chegar a conclusão alguma. Clarice Lispector, por sua vez, talvez perguntasse por que gritamos tanto para esconder silêncios que nunca tivemos coragem de enfrentar.

Sempre me lembro de A Escola de Atenas, de Rafael. A pintura reúne filósofos debatendo ideias, cada qual convencido de suas razões, mas todos dividindo o mesmo espaço. Hoje talvez o quadro precisasse de uma atualização: Platão bloquearia Aristóteles, Diógenes faria um vídeo indignado e alguém perguntaria, nos comentários, se aquilo era inteligência artificial.

Os períodos históricos ensinam mais do que imaginamos. O Iluminismo apostou na razão. Depois vieram guerras suficientes para mostrar que, quando a conversa acaba, os canhões costumam assumir a palavra. Parece uma lição cara demais para ser esquecida, mas a humanidade tem uma curiosa habilidade para repetir provas já reprovadas.

Enquanto isso, Almir Sater continua lembrando que “cada um de nós compõe a sua história”. Gonzaguinha insiste que a vida é bonita e é bonita. Talvez ambos estejam apenas sugerindo que ninguém escreve uma boa história sozinho e que nenhuma melodia sobrevive se cada instrumento decidir tocar apenas para si.

Talvez José Saramago tivesse razão ao dizer que é preciso reparar no mundo. Reparar inclui ouvir, prestar atenção e desconfiar das próprias certezas. É um exercício difícil numa época em que todo mundo parece especialista em tudo e aprendiz de quase nada.

No fim das contas, conversar continua sendo uma das poucas invenções humanas que não envelhecem. Ela apenas exige paciência, curiosidade e uma qualidade rara: admitir que o outro pode saber alguma coisa que nós ainda não sabemos. Se Sócrates estivesse aqui, provavelmente não faria um discurso. Apenas faria uma pergunta. E talvez fosse exatamente dela que estivéssemos precisando.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.