Por: Sérgio Sant’Anna*
Ela chega sem ruídos, ou não como afirmava minha avó Silvina. Ora faz aquele estardalhaço, ora opta pelo silêncio e apaga tudo bem baixinho, de leve, sem traços, sem rumores, sem alarde; outrora, avisa com antecedência, faz questão de marcar, remarcar, procura se ater ao sofrimento, parece castigo, vem com aquela foice às mãos disposta ao sangue literalmente. Quanta dor, quanta luta, todavia quanta gente forte, batalhadora, que até o findar dos últimos minutos batalharam incansavelmente. Começo a escrever a minha crônica semanal pela necessidade de deixar registrado através das palavras (estas que não se apagarão), quantas pessoas passaram pela minha vida, cujo sofrimento fez-me chorar feito recém-nascido. Aos berros, de maneira contínua a procurar uma explicação. E mesmo aquelas que o silêncio retirou-me. Com pressa, mas que as lágrimas ainda escorrem.
Essa pressa que nos absorve, consome nossos dias, diminui nossos momentos, deixá-nos letárgicos diante da vida, é o princípio do fim. Somos apagados pelo excesso, tragados pelo consumismo, gratos pela ingratidão, apáticos diante do medo, inertes diante do caos. Toleramos o intolerável, acreditamos nas mentiras, confiamos nos inconfiáveis, damos créditos aos incautos, viajamos pelas turtuosas estradas da fadiga, gestoras do medo, líderes da apatia, técnicos da ansiedade, depositores da pressão, alicerces das inverdades.
A morte não será o fim de tudo, acredito num recomeço, numa estrada sem fim em que seguiremos nossos ancestrais em busca do tempo perdido, estaremos voltados ao aprender, ao não desistir, lutar sempre na luz, dialogar sempre em paz, debater o que for preciso, mesmo nas discordâncias, mas sem agredir, sem verbalizar o inominável, sem o baixo-calão. Lá, que eu não sei onde fica, o sossego será o líder, o ócio o fazedor de ideias inacabadas, território do não há mais fim. Ali, que eu não sei onde fica, seremos amparados pelos amigos e antigos inimigos, a paz será o reino, o território do concordar. Saberemos que ao fim, chegaremos num consenso, e que a guerra jamais florirá.
Contudo, antes que o fim se estabeleça, para uma nova realidade, vivamos tudo que há para viver, permitir que a felicidade adentre, e que o sorriso faça parte do nosso cotidiano. Sejamos permissivos, apenas para podermos viver. Viva intensamente até o dia em que a morte chegar…



