Por: Sérgio Sant’Anna*
Há quem caminhe pela vida como se estivesse sempre diante de um tribunal invisível. Cada gesto, cada palavra, cada escolha passa pelo crivo imaginário de olhares alheios. São pessoas que não apenas vivem: performam. E, nesse palco silencioso, a liberdade vai sendo trocada, pouco a pouco, pela necessidade de aplauso. O problema é que a plateia nunca se satisfaz — e, quando se cala, o silêncio soa como reprovação.
Jean-Paul Sartre já advertia que “o inferno são os outros”, não porque o outro seja, em si, um tormento, mas porque é nele que buscamos a confirmação do que somos. Ao depender desse espelho, tornamo-nos reféns de uma imagem que não controlamos. A aprovação alheia deixa de ser um detalhe social e passa a ser um eixo existencial. E então, o que resta de autêntico quando a própria identidade é construída para agradar?
Na literatura, essa angústia também encontra forma. Em O Estrangeiro, de Albert Camus, o protagonista Meursault parece não corresponder às expectativas sociais — e é justamente por isso que causa estranhamento. Ele não chora no enterro da mãe, não simula sentimentos esperados, não busca aprovação. Sua condenação não é apenas jurídica, mas moral: a sociedade o julga por não jogar o jogo da aparência.
De modo semelhante, Friedrich Nietzsche criticava aquilo que chamava de “moral de rebanho”, na qual o indivíduo abdica de sua singularidade para se adequar ao coletivo. Para ele, a necessidade de aprovação é uma forma de domesticação — uma renúncia à potência de ser quem se é. A autenticidade, nesse sentido, exige coragem: a coragem de desagradar.
Na contemporaneidade, Zygmunt Bauman amplia essa discussão ao tratar da “modernidade líquida”. Em um mundo onde tudo é volátil, inclusive as relações, a aprovação se torna ainda mais instável. Curtidas, comentários, seguidores — tudo isso compõe um novo sistema de validação, imediato e efêmero. Nunca foi tão fácil ser aprovado, e nunca foi tão difícil sentir-se suficiente.
É curioso lembrar de Ana Paula Renault, cuja trajetória pública foi marcada justamente pelo confronto com essa lógica. Ao se posicionar de forma intensa e, muitas vezes, polêmica, ela dividiu opiniões e enfrentou rejeições. No entanto, sua figura também revela algo importante: a autenticidade, ainda que incômoda, gera identificação. Nem sempre agradar é sinônimo de ser aceito de verdade. Talvez o grande desafio seja compreender que a aprovação dos outros é, no máximo, um eco — e não a voz principal. Viver à espera desse eco é abrir mão da própria narrativa. Afinal, quem precisa da aprovação constante acaba esquecendo de fazer a única pergunta que realmente importa: eu aprovo a vida que estou levando?


