Por: Nadia Araujo*
Esta semana, uma notícia me pegou desprevenida e, como de costume, gostaria de compartilhá-la com meus amigos (somos amigos, certo?).
A notícia é a seguinte: um empresário achou que era de bom tom coagir um morador de rua a pintar a barba e os cabelos de vermelho em troca de doações. Isso, por si só, já é um absurdo. Fica pior quando descobrimos que a vítima é um idoso de 83 anos.
Para se retratar, o empresário disse que era uma brincadeira, pois eles eram amigos há anos. Em outro vídeo, a assistente social que está tentando ajudar o senhor contou que, em conversa com ele, o idoso disse que, depois de 20 anos morando na rua, nada mais doía, a não ser aquela situação. Era uma dor diferente.
Eu fico imaginando de qual dor ele estava falando: a dor de ser envergonhado para conquistar o mínimo de dignidade, a dor de se sentir vulnerável ou a dor de se sentir submisso a uma pessoa que acredita ter algum tipo de poder apenas porque tem alguns trocados a mais.
Engraçado que, no vídeo, tirando as roupas, são duas pessoas iguais. Dois homens de cabelos grisalhos, andando sobre duas pernas, com a mesma quantidade de neurônios. Mas aquele empresário achou que não.
Ele não viu humanidade naquele senhor, que poderia ser seu pai. O pai de alguém.
Não quero imaginar que esse empresário seja um homem perverso, que tenha feito isso por pura maldade. Mas o mínimo de poder que os trocados a mais lhe deram o cegou. O governou. Talvez, por um momento, o ego tenha falado mais alto.
Talvez não tenha passado pela sua cabeça que, se tiver sorte e boa saúde, um dia chegará a essa idade. E tomara que, quando esse dia chegar, ninguém mais jovem e com alguns números a mais na conta bancária se esqueça de que, dentro daquele corpo frágil, ainda existe um homem.



