sábado, 13 junho, 2026

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Artigo: O erro de confiar no desejo

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Em meio às disputas eleitorais no Brasil, as pesquisas de intenção de voto frequentemente ocupam o centro do debate público, não apenas como instrumentos técnicos de aferição do cenário político, mas também como alvos de contestação, descrédito e uso estratégico por diferentes grupos. Em muitos casos, deixam de ser avaliadas por sua metodologia e passam a ser julgadas exclusivamente pelo grau de conforto ou desconforto que provocam em quem lê seus números.

O comportamento observado nas eleições presidenciais de 2022 ilustra de forma emblemática essa dinâmica. À época, o então presidente Jair Bolsonaro e parte significativa de seus apoiadores passaram a questionar de forma recorrente a confiabilidade dos institutos de pesquisa, sobretudo quando os levantamentos indicavam desvantagem para sua candidatura. Discursos que colocavam em dúvida a metodologia, a imparcialidade e até mesmo a legitimidade dessas pesquisas tornaram-se frequentes, criando um ambiente de desconfiança que extrapolou o campo técnico e adentrou o terreno da conveniência política: pesquisa boa era a que mostrava Bolsonaro na frente; pesquisa ruim era a que insistia em contrariar o desejo.

Entretanto, o resultado das urnas trouxe um contraponto objetivo a esse discurso. Diversos institutos que haviam sido alvo de críticas conseguiram, dentro de suas margens de erro, retratar com precisão o desfecho da eleição. Um dos casos mais emblemáticos foi o do instituto MDA, cujo levantamento divulgado na véspera do segundo turno atribuía 51,1% dos votos válidos a Luiz Inácio Lula da Silva e 48,9% a Jair Bolsonaro, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais. O resultado oficial confirmou praticamente esse cenário: Lula foi eleito com 50,9% dos votos válidos, enquanto Bolsonaro obteve 49,1%, configurando a disputa mais acirrada desde a redemocratização, com diferença inferior a dois milhões de votos.

Outros institutos tradicionais também apresentaram desempenhos consistentes. Datafolha e Quaest apontaram vantagens de 52% a 48% para Lula, enquanto o Paraná Pesquisas indicou 50,4% a 49,6%, todos dentro da margem de erro de aproximadamente dois pontos percentuais. Ainda que alguns tenham superestimado a vantagem do candidato petista, como Ipec (ex-Ibope), AtlasIntel, Ipespe e PoderData, todos convergiram na indicação da vitória de Lula, demonstrando alinhamento na direção do resultado, ainda que com variações quantitativas. Erraram na medida, mas acertaram no destino.

Por outro lado, chamou atenção o desempenho de institutos que gozavam de maior prestígio entre apoiadores de Bolsonaro justamente por projetarem cenários favoráveis ao então presidente. Levantamentos como os do Brasmarket, Futura/Modal e Veritá indicavam vantagem para Bolsonaro, chegando a apontar vitória com margens superiores às registradas nas urnas. Esses resultados, que contrariavam a tendência geral observada pelos demais institutos, acabaram se revelando os mais distantes do resultado real. A ironia é inevitável: os levantamentos mais celebrados nas redes sociais bolsonaristas foram justamente os que menos dialogaram com a realidade das urnas.

Quatro anos depois, o debate em torno das pesquisas eleitorais volta a ganhar intensidade, mas agora com sinais de uma escalada ainda mais acentuada na politização do tema. A repetição do padrão de descredibilização é acompanhada por novos elementos, incluindo questionamentos institucionais e decisões judiciais que passam a orbitar o campo das pesquisas. A atuação do ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, insere-se nesse contexto ao determinar medidas envolvendo levantamentos específicos, como o realizado pelo instituto Atlas Intel.

Esse episódio ocorre em um cenário de elevada tensão política, no qual pesquisas que apontam mudanças no desempenho dos candidatos — como uma eventual guinada positiva de Lula — passam a ser não apenas analisadas, mas também contestadas sob múltiplas frentes. Soma-se a isso a circulação de denúncias e investigações envolvendo figuras centrais do cenário político, como no caso das menções a Flávio Bolsonaro e sua relação com episódios envolvendo o Banco Master. Esses elementos contribuem para um ambiente em que dados estatísticos, decisões judiciais e narrativas políticas se entrelaçam, dificultando a separação entre análise técnica e disputa de poder.

O histórico recente demonstra que as pesquisas eleitorais, apesar de imperfeitas e sujeitas a variações, mantêm relevância como instrumentos de leitura do cenário político quando analisadas de forma crítica e contextualizada. O que se observa, porém, é que seu papel tem sido progressivamente tensionado por interesses políticos que buscam validar ou invalidar resultados conforme sua conveniência. Para muitos atores políticos, o problema nunca foi o erro das pesquisas, mas a recusa dos números em confirmar suas expectativas.

Nesse sentido, o desafio não está apenas na precisão dos institutos, mas na maneira como sociedade, candidatos e instituições lidam com a informação produzida, evidenciando que o debate sobre pesquisas eleitorais é, antes de tudo, um reflexo do próprio estágio da democracia brasileira.

Pesquisa Quaest divulgada nesta semana mostra o presidente Lula (PT) à frente no 1º turno com 39% das intenções de voto, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que tem 29%. Dez pontos de vantagem. Pesquisa é fotografia de momento, não sentença eleitoral. Mas a política também é feita de percepção, ambiente e narrativa. E quando a areia da ampulheta começa a cair mais rápido, não adianta culpar o relógio. O chamado “BolsoMaster” pode até não definir a eleição, mas certamente acelerou a queda captada pela pesquisa (…)

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.