Por: Tainara Ferreira*
Quando alguém diz “livro de terror”, a cena que vem à cabeça costuma ser estrangeira: um casarão na Nova Inglaterra, uma névoa londrina, um corvo empoleirado num busto. Raramente a gente imagina um beco de Curitiba, um matadouro no interior ou uma taverna do Brasil imperial. E, no entanto, é por aí que o medo também passeia na nossa literatura.
Vale começar pelo século XIX, quando o romantismo brasileiro flertou com o gótico. Em Noite na Taverna (1855), Álvares de Azevedo reúne jovens à mesa para uma noite de bebidas e confissões: crimes, paixões doentias e fantasmas de consciência, tudo em um livro curto que se lê de uma sentada.
Poucas décadas depois, quem assombra o leitor é ninguém menos que Machado de Assis. No conto A Causa Secreta (1885), a frieza de um personagem diante da dor dos outros vai ganhando contornos tão perturbadores que o final fica martelando na cabeça muito depois da última linha. É a prova de que o “bruxo do Cosme Velho” sabia ser sombrio quando queria.

Já no século XX, Dalton Trevisan transformou Curitiba em cenário de pesadelo. Em O Vampiro de Curitiba (1965), o terror não vem de criaturas sobrenaturais, mas de desejos e obsessões que se escondem em gente comum, narrados em uma linguagem seca, quase de manchete, que torna tudo ainda mais incômodo.
Chegando aos nossos dias, o suspense ganhou ritmo de thriller. Dias Perfeitos (2014), de Raphael Montes, acompanha um estudante de medicina cuja paixão por uma garota se transforma em obsessão, com um narrador que deixa o leitor dividido entre o fascínio e o desconforto (vale também conhecer as outras obras do autor!). E De Gados e Homens (2013), de Ana Paula Maia, leva a história para dentro de um matadouro, onde a rotina da morte é tratada com crueza (atenção: não é leitura para quem se impressiona com cenas fortes).
Para quem quiser se aprofundar na violência urbana contada em chave de suspense, O Matador (1995), de Patrícia Melo, é uma boa próxima parada: um jovem da periferia paulistana vê a vida mudar quando começa a matar por encomenda.
No fim das contas, o susto mais legal desse gênero talvez seja descobrir que ele sempre esteve aqui, nas prateleiras de casa, esperando o leitor apagar a luz. Se der medo, o autor está sendo bem-sucedido.




