sábado, 7 novembro, 2026
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Arte em Foco: Kintsugi – A Matéria da Saudade

Por: Larissa Cabreira*

Existe no Japão uma técnica chamada kintsugi, que significa algo como emenda de ouro. Quando uma peça de cerâmica se quebra, em vez de esconder as rachaduras com uma cola discreta, o artesão une os pedaços com laca misturada a pó de ouro. A peça volta inteira, mas não volta igual. Cada fissura vira uma linha, como se fosse um mapa do que aconteceu. 

Uma tradição conta que a prática nasceu depois que uma tigela de chá quebrada foi consertada com grampos de metal tão desajeitados que os artesãos japoneses resolveram fazer um reparo à altura do objeto.

No dia 14 de novembro completam dez anos desde que meu pai partiu. 

Dez anos é uma idade curiosa para uma ausência. É tempo suficiente para que a ferida deixe de ser ferida e vire paisagem, e pouco demais para que alguma coisa volte a ser como era. Já escrevi nesta coluna sobre o que ele me ensinou a ver. Nunca tinha pensado em como a gente remenda o que quebra.

Durante muito tempo, a gente tenta o conserto invisível. A cola transparente, o rosto composto, o “estou bem” dito em dia útil. O kintsugi propõe outra coisa. Que a rachadura seja a parte mais bonita da peça, não porque a quebra tenha sido boa, mas porque ela aconteceu, e fingir que não aconteceu seria apagar a história do objeto.

Dez anos me ensinaram que o luto não é um conserto, é uma convivência.

 A peça não volta a ser a mesma, e tentar que volte é o que cansa. O que a gente faz, com o tempo, é aprender a olhar para as linhas. Há dias em que elas doem, outros em que passam despercebidas, e há dias, mais raros e mais bonitos, em que brilham.

No kintsugi, o ouro não vai onde a peça estava inteira. Vai exatamente onde ela quebrou. Penso nisso quando reparo no que carrego dele. O jeito de olhar o mundo que meu pai me deixou como herança, e que sem querer virou o fio de tudo o que escrevo e ilustro, mora justamente nessas rachaduras. 

Foi onde algo se partiu que essa herança passou a brilhar.

A filosofia por trás dessa técnica costuma ser associada ao wabi-sabi, a ideia de enxergar beleza no que é imperfeito, passageiro e incompleto. Uma peça consertada com ouro carrega no próprio corpo a prova de que viveu. Em vez de esconder o acidente, ela o assume como parte da biografia, e é aí que ganha uma história para contar.

É curioso que a gente consiga aplaudir isso numa tigela e tenha tanta dificuldade de aplicar a si mesmo. Passamos anos tentando parecer inteiros, quando a vida inteira já mostrou que ninguém passa por ela sem rachar. Dez anos depois, o que me parece mais honesto é isso, não esconder a emenda, nem exibi-la com drama. Apenas deixá-la ali, dourada, à vista, como quem diz que aconteceu e que a peça continua em uso.

No dia 14, vou olhar para essas linhas com carinho e sem pressa. Não para consertar o que não tem conserto, mas para reconhecer o ouro que o tempo foi colocando. E se alguém me perguntar como se vive dez anos depois de perder alguém tão importante, acho que respondo com a imagem de uma tigela. 

Quebrada, remendada, ainda de pé, e com um brilho novo justamente nos lugares onde um dia doeu.

*Larissa Cabreira é colaboradora do Jornal O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.