Imbatível na arte de soltar culpados, Gilmar Mendes resolveu que o Supremo deve punir um inocente
Por: Augusto Nunes*
Que Cinema Novo, que nada: a maior contribuição nativa à sétima arte é o faroeste à brasileira. Surgida na segunda década deste século estranho, a invenção é o avesso do bangue-bangue americano. Aqui, é o bandido que persegue o mocinho, é o vilão que tenta prender o xerife. Outras diferenças: aqui as coisas acontecem na vida real, a plateia é o povo e o fora da lei fica com a mocinha no final infeliz para os espectadores honestos. Foi assim, por exemplo, no pioneiro O Mensalão não Existiu.
É verdade que alguns figurantes foram transferidos do semianonimato para a gaiola, mas os chefões do bando de gatunos nem foram apresentados a uma cela. Logo devolvidos à liberdade, saíram por aí berrando que a roubalheira foi uma invencionice de inimigos dispostos a tudo para minar a popularidade de Lula, a Mãe dos Ricos que se fantasia de Pai dos Pobres. Naquele Brasil menos cafajeste, essas tramas pareceram bastante audaciosas. Foram reduzidas a ousadias de jovens sem juízo já nas primeiras cenas da obra-prima O Petrolão, a mais caprichada e obscena produção do faroeste à brasileira.
Para enquadrar de vez os que insistem em cumprir a lei, negociou-se nas catacumbas de Brasília o acordo que oficializou a cumplicidade entre os mais poderosos patifes e os principais juízes do País. O furto de mensagens trocadas por magistrados e procuradores federais que conduziam a Operação Lava Jato foi o pretexto para a contraofensiva da bandidagem. Até as lagostas do cardápio do Supremo sabem que promotores e juízes conversam o tempo todo sobre processos e investigações em andamento. Sabem também que nenhum inocente foi preso. Todos os acusados exerceram o direito de ampla defesa, sem conseguirem livrar-se do que se descobrira na devassa dos porões de Brasília.
A condenação imposta a Lula pelo juiz Sergio Moro, por exemplo, foi ratificada por oito juízes de duas instâncias superiores. A imensidão de provas dos crimes foi mandada às favas pelo ministro Gilmar Mendes. Entre citações em alemão e mergulhos no juridiquês erudito, caprichando no balé dos beiços, o agora decano dos atores togados fingiu enxergar na maior ofensiva anticorrupção da história um complô forjado para lotar a ala reservada à elite da população carcerária. “Em algum lugar mais sensível e talvez mais ortodoxo em matéria de Direito, é de se dizer: essa gente estava se permitindo torturar pessoas”, disse Gilmar num dos melhores piores momentos de Petrolão é Vida. Ele se referia ao caso de Emílio Odebrecht, que não ficou recluso um único minuto.
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A folha corrida informa que o decano só perde o sono quando é engaiolado algum dos incontáveis bandidos de estimação. Imediatamente, ele aciona sua usina de habeas corpus, decisões monocráticas e chicanas em geral para socorrer o amigo que atropelou a lei — seja qual for a lei. Segue-se uma amostra, composta por dois casais e 16 indivíduos, dos que devem ao superjuiz o direito de ir e vir:
- Roger Abdelmassih, doutor em estupro.
- Eike Batista, vendedor de nuvens.
- Sérgio Cabral, viciado em roubos e furtos, condenado a mais de 400 anos de cadeia.
- Anthony e Rosinha Garotinho, versão degenerada da dupla Bonnie e Clyde.
- José Riva, recordista em bandalheiras em Mato Grosso.
- Silval Barbosa, ex-governador de Mato Grosso e medalha de prata em ladroagem na olimpíada estadual.
- Jacob Barata, compadre de Gilmar e chefão da máfia dos transportes no Rio.
- Paulo Maluf, campeão brasileiro de assaltos a cofres públicos.
- Celso Pitta, vice.
- Naji Nahas, que conseguiu quebrar a Bolsa de Valores do Rio.
- José Dirceu, ex-capitão do time de Lula e melhor técnico da história do campeonato de futebol dos presídios.
- Paulo Vieira de Souza, vulgo Paulo Preto, recordista sul-americano em desvio de dinheiro para construção de estradas.
- Geddel Vieira Lima, vice-presidente da Caixa Econômica Federal no governo Dilma, aquele das malas com R$ 52 milhões.
- Marcelo Odebrecht, que identificou o ministro Dias Toffoli como o “Amigo do Amigo do Meu Pai”, último mistério da lista dos fregueses do Departamento de Propinas da empreiteira que já foi a maior do Brasil.
- Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal durante o governo Dilma.
- Antonio Palocci, ministro da Fazenda de Lula “exonerado a pedido” por corrupção e chefe da Casa Civil de Dilma “exonerado a pedido” por corrupção.
- Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, expulso do Congresso com dois votos contrários e todos os outros a favor.
- João Santana e Mônica Moura, casal de publicitários que ajudou Dilma a conseguir um segundo mandato, ensinando ao eleitorado que, se ela perdesse, os banqueiros fariam a comida sumir da mesa dos pobres.
- Adélio Bispo dos Santos, autor do atentado contra Jair Bolsonaro, ganhou de Gilmar um habeas corpus que lhe permitiu trocar a cadeia pelo quarto de um hospital onde recebe tratamento psiquiátrico. Até o fim do ano, novos exames decidirão se o paciente já está recuperado para esperar candidatos em Juiz de Fora.
- Lula, que dispensa apresentações.
Tão piedoso com os fora da lei, Gilmar resolveu mostrar que sabe ser durão com gente honesta. Ele apoiou todas as decisões que fizeram do Brasil o líder do ranking mundial que mais prende cidadãos sem culpa. Há pouco, irritado com um comentário jocoso feito por Sergio Moro numa festa junina, resolveu que o senador paranaense precisa ser julgado no Supremo por crime contra a honra.
Procurada pelo colunista, a honra recusou-se a comentar o caso.



