terça-feira, 26 maio, 2026

spot_img

TOP 5 DESTA SEMANA

Notícias Relacionadas

Artigo: O abraço necessário e a convulsão de milhões: uma crônica pleonástica

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há início de anos que começam de maneira pacata, todavia este de 2026 parece que está ativado, principalmente quando se trata de assuntos para a construção de crônicas, ou seja, relatos do cotidiano. Em princípio anotei que escreveria, para publicação, esta semana, sobre as quatro indicações do filme “O agente secreto” para o Óscar. Porém, pautei, pensei, ponderei, e optei sobre a construção de uma crônica que tratasse sobre assuntos que não tratei com meu pai (falecido), mas decidi que a imagem de um avô, que subiu ao altar para encontrar conforto no abraço do padre, na Paróquia de São Francisco de Assis, aqui em Tubarão, ao saber da perda de seu neto acabou me comovendo, levando-me às lágrimas, principalmente ao ver o vô chorando copiosamente sobre o ombro amigo do pároco, que interrompeu a cerimônia para confortá-lo. Gestos como este cortam corações, dilaceram almas, porém traz à tona o acolhimento do sacerdote diante dos seres humanos, uma cena carregada da doçura do abraço. Do afeto do doar-se. Empatia. Enquanto isso, na casa mais vigiada do país, com câmeras por todos os cubículos e frestas, o atalho inverossímil do livro de George Orwell, torna público a convulsão de um participante durante uma prova de resistência e a inaptidão dos participantes em ajudá-lo, pois ali estava em jogo cinco milhões de reais.

São duas cenas que me impactaram, uma que demonstrou o verdadeiro gesto do amor, o acolhimento, o abraço, o ombro que conforta; do outro, a impotência por ter se vendido, por ter sido cooptado pelo dinheiro e pela voracidade que se assume quando o assunto é o capital. O narcisismo reverbera, invade a alma humana e impede o Homem de exercer seu humanismo (sei que é pleonástico, porém necessário). Torna o gesto de carinho piegas, a palavra de conforto e ombro amigo como fora de moda. O novo normal é deixar que a pessoa encontre o caminho sozinha. Que busque seus atalhos, que escolha seu destino, que se possível não encontre a gratidão.

É assim que se desenvolvem os novos seres humanos, rígidos diante do afeto, avessos ao amor, ríspidos diante do beijo, grotescos no contato do abraço, ferozes no aperto de mão. Estamos sendo tragados pela solidez da ausência de reciprocidade, entramos numa era em que o amor é elemento dos livros clássicos, para muitos em desuso. O presente é representado pela curtição, algo acompanhado de um futuro de ingratidão. O mais baixo nível humano, comparado-se a um objeto – uso e depois não quero mais. Estamos aceitando o inaceitável. Tornando verdade as mentiras. Trocando o certo pelo errado. Cooptados pelo consumismo. Perdemos nossa identidade. Tu és o que veste. Tu és a casa onde mora, o bairro onde vive, o veículo que possui. Afeto, amor, paixão, empatia, humanidade não são vocábulos representados através dos signos linguísticos.

A imagem do avô em desespero, caminhando ao encontro do sacerdote que consagrava a hóstia, ao saber da morte de seu neto, é daquelas cenas da vida que deveriam comover qualquer alma humana, e o abrir dos braços sacerdotal é sim o sinal de que aquele padre é um enviado de Deus. Enquanto isso, há os que se recolhem e acham normal deixar um colega agonizando até a morte em busca de milhões.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.