sábado, 20 junho, 2026

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Artigo: Mudança necessária

Por: Rodrigo Segantini*

Durante anos, a UPA Wilson Rodrigues funcionou como algo além de um pronto atendimento: foi, na prática, uma clínica geral aberta 24 horas. Isso não por erro proposital, mas por um costume cultural: se há médico disponível, por que procurar a UBS, que exige agendamento, fila e horário? Para muitos, bastava chegar e ser atendido. E assim foi.

Mas essa prática é equivocada. A UPA existe para urgências e emergências. Atendimento básico, como o nome indica, deve ocorrer na UBS — Unidade Básica de Saúde. Agora, a Prefeitura resolveu alinhar a prática à norma. A UPA deixará de absorver consultas que pertencem à atenção primária. Parece simples, mas não é.

O primeiro obstáculo é cultural. Mudar um hábito consolidado exige mais que comunicados: requer campanhas, orientação e, acima de tudo, eficiência nas UBSs. Se muitos recorrem à UPA, é porque sentem que a UBS não resolve. O caminho até o atendimento, para alguns, lembra os corredores confusos de O Processo, de Kafka — repletos de normas indecifráveis e portas que não levam a lugar algum. Isso não pode acontecer.

O segundo obstáculo é administrativo. Parte da equipe da UPA é formada por servidores concursados, o que contraria o modelo terceirizado previsto em contrato. Agora, será preciso realocar esses profissionais, o que exige planejamento, ajuste de rotinas e reorganização de equipes — sempre com alguma resistência. Toda mudança causa desconforto, sobretudo quando mexe com estruturas consolidadas.

Vale lembrar que a UPA leva o nome de Wilson Rodrigues, saudoso secretário municipal de Saúde entre 2005 e 2012, que reestruturou o sistema e sonhava com uma unidade focada no pronto atendimento. O passo agora dado já era planejado por ele há quase 15 anos.

O que hoje se anuncia como novo é, na verdade, um atraso em relação ao plano original. É justo reconhecer que o atual prefeito, Dr. Fulvio, sendo médico, entende a necessidade da mudança — e tem mostrado coragem ao implementá-la. Mas chama a atenção que, em sua gestão anterior, há cerca de dez anos, ele não tenha feito isso.

A meta é acertada: melhorar o fluxo, especializar atendimentos, organizar o sistema. Mas isso só ocorrerá com diálogo, clareza e respeito à população. Como em A Peste, de Camus, quando uma cidade enfrenta uma crise e encontra saída pela lucidez e ação ética, Taquaritinga precisa mais que discursos — precisa de ação firme e consciente.

A UPA deve voltar a ser o que sempre deveria ter sido: um pronto atendimento. Mas, para isso, a UBS precisa funcionar bem. E é aí que reside o verdadeiro desafio.

*Rodrigo Segantini é advogado, professor universitário, mestre em psicologia pela Famerp.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.