quinta-feira, 2 abril, 2026

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Artigo: A falência politica. São Sebastião que nos acolha…

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Se há um estado que, nas últimas três décadas, se especializou em produzir crises políticas em série, esse estado é o Rio de Janeiro. Não por acaso, mas por repetição quase didática de erros, escândalos e escolhas desastrosas. O que se vê ali não é apenas má gestão — é a normalização do colapso.

O dado recente é constrangedor: entre os últimos três governadores eleitos, Wilson Witzel foi cassado, enquanto Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão foram parar atrás das grades. Não se trata de “casos isolados”. É um padrão. Um ciclo viciado que revela um sistema político capturado por interesses que pouco — ou nada — têm a ver com o interesse público.

A degradação institucional fluminense não ocorre no vácuo. Ela é alimentada por uma dinâmica política onde o debate público foi progressivamente substituído por narrativas simplistas, polarização e estratégias de manipulação emocional. Nesse cenário, setores da direita brasileira têm demonstrado grande eficácia — não necessariamente na gestão pública — mas na construção de discurso. A crítica sistemática a partidos e lideranças progressistas frequentemente vem acompanhada de desinformação, distorções e apelos ao medo.

Figuras como Jair Bolsonaro souberam capitalizar esse ambiente. A retórica baseada na rejeição ao “outro” — seja ele ideológico, social ou institucional — encontrou terreno fértil em um estado já marcado por frustração e descrença. Não se trata apenas de divergência política legítima, mas de uma estratégia que, em muitos casos, transforma adversários em inimigos e simplifica problemas complexos em slogans fáceis.

Um fenômeno particularmente revelador é ver parcelas da população economicamente vulnerável aderindo a discursos que, na prática, pouco dialogam com suas próprias condições materiais. Trabalhadores em subempregos, frequentemente expostos à precariedade, acabam defendendo agendas que prometem “ordem” e “conservação”. Mas conservação de quê? Essa é a pergunta que raramente é feita com a devida profundidade.

Ainda assim, é importante reconhecer que esse comportamento não surge por acaso ou ignorância pura — ele é resultado de um ambiente saturado de informações conflitantes, insegurança econômica e falta de confiança nas instituições. Quando o debate público é contaminado por simplificações e antagonismos constantes, escolhas políticas passam a ser guiadas mais por identidade e emoção do que por análise concreta de políticas públicas.

O mais preocupante, porém, é o caráter contagioso desse modelo. São Paulo começa a dar sinais que merecem atenção. A ascensão de Tarcísio de Freitas ocorre em um contexto de crescente polarização e disputas de narrativas intensas. Ainda que o estado não esteja no mesmo estágio do Rio, ignorar os paralelos iniciais pode ser um erro custoso.

O caso fluminense não é apenas um retrato local — é um alerta nacional. Quando a política se transforma em um jogo de ressentimento, desinformação e promessas vazias, o resultado é previsível: instituições fragilizadas, governos ineficientes e uma população cada vez mais distante das decisões que afetam sua própria vida.

Se o Brasil continuar tratando esses sinais como episódios isolados, estará apenas adiando o inevitável. O problema não é só quem governa — é o modelo político que permite que esse ciclo se repita.

Quase Páscoa — tempo de chocolate e memória seletiva. Convém lembrar que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e seu sócio, Alexandre Santini, “administraram” uma franquia da Kopenhagen num shopping da Barra da Tijuca. A loja virou caso do Ministério Público do Rio de Janeiro, sob suspeita de funcionar menos como bombonière e mais como lavanderia — de dinheiro oriundo do já folclórico esquema de “rachadinha”.

É o mesmo episódio que o então ex- juiz, depois ex-ministro, agora político de extrema-direita e aliado Sérgio Moro jurou ter sido o limite moral para deixar o cargo: proteger, não. Lembra?

Feliz Páscoa, leitor. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro ensaia levar o modelo administrativo do Rio de Janeiro — esse mesmo, testado e aprovado nas sombras — para tentar ocupar a cadeira da Presidência.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.