O que eu, como professor de redação, ensino aos meus alunos para conquistar a nota 1000
Por: Sérgio Sant’Anna*
Todos os anos, quando se aproxima o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), percebo que uma das maiores preocupações dos estudantes é descobrir qual será o tema da redação. Como professor de Redação, tenho acompanhado de perto as angústias, as expectativas e, principalmente, as dificuldades dos candidatos diante de uma das etapas mais importantes do exame. Minha primeira orientação é bastante objetiva: não devemos estudar apenas para acertar o tema, mas desenvolver a capacidade de argumentar sobre qualquer problema social apresentado pela banca. Para 2026, considero indispensável acompanhar as discussões relacionadas à inteligência artificial, à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, às mudanças climáticas, à saúde mental, à inclusão social, à educação e às transformações do mundo do trabalho. São assuntos que revelam problemas estruturais da sociedade brasileira e exigem reflexão crítica, conhecimento de mundo e capacidade de propor soluções.
Entre os temas que merecem minha atenção especial neste ano, destaco, inicialmente, os impactos da inteligência artificial na sociedade brasileira, sobretudo na educação, no mercado de trabalho e na circulação de informações. A popularização das ferramentas digitais trouxe inúmeras possibilidades, mas também intensificou problemas como a desinformação, a dependência tecnológica, a reprodução de preconceitos por algoritmos e a dificuldade de distinguir conteúdos verdadeiros de falsos. Outro assunto bastante relevante é a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual, considerando a exposição excessiva às telas, o cyberbullying, a exploração de dados pessoais e os impactos das redes sociais sobre a formação dos jovens. Também considero fortes as discussões sobre a adaptação das cidades às mudanças climáticas, a vulnerabilidade das populações diante de desastres ambientais, a inclusão de pessoas neurodivergentes e os desafios da saúde mental entre adolescentes. Ressalto, entretanto, que essas possibilidades são apostas fundamentadas em debates contemporâneos, e não previsões oficiais do Inep.
Na minha prática pedagógica, costumo afirmar que a conquista de uma boa nota começa pelo domínio das cinco competências avaliadas na redação. A primeira competência exige o conhecimento da modalidade escrita formal da língua portuguesa. Isso significa que o candidato precisa demonstrar domínio da ortografia, da acentuação, da pontuação, da concordância, da regência e da construção sintática. Recomendo que os estudantes evitem abreviações, marcas de oralidade, expressões excessivamente informais e períodos muito extensos, que podem comprometer a clareza. A segunda competência exige compreender integralmente a proposta, respeitar o recorte temático e desenvolver um texto dissertativo-argumentativo com repertório sociocultural produtivo. Aqui está um dos erros mais comuns: apresentar informações interessantes, mas que não respondem diretamente ao problema proposto. Minha dica é identificar as palavras-chave do tema, compreender o problema central e delimitar desde o início qual será a tese defendida.
A terceira competência, em minha opinião, representa o coração da argumentação. Não basta apresentar uma opinião: é necessário sustentá-la por meio de argumentos consistentes, organizados e bem relacionados. Por isso, ensino meus alunos a trabalhar com a relação entre causa e consequência, a contextualização histórica, a análise de problemas institucionais e a exemplificação concreta. Uma estratégia bastante eficiente consiste em construir dois eixos argumentativos diferentes, mas complementares. Se o tema tratar dos desafios da inclusão digital, por exemplo, o primeiro desenvolvimento poderá abordar a desigualdade socioeconômica como obstáculo ao acesso à tecnologia, enquanto o segundo poderá discutir a insuficiência de políticas públicas de educação digital. A quarta competência, por sua vez, avalia os mecanismos linguísticos responsáveis pela coesão textual. Recomendo o uso consciente de conectivos como “Nesse sentido”, “Além disso”, “Sob essa perspectiva”, “Consequentemente”, “Entretanto” e “Portanto”. O segredo não é decorar uma lista de expressões, mas estabelecer relações lógicas entre as ideias, evitando repetições e conexões artificiais.
A quinta competência merece uma atenção especial, pois exige a elaboração de uma proposta de intervenção para o problema discutido, respeitando os direitos humanos. Sempre explico aos meus alunos que a conclusão não pode ser apenas uma repetição da tese ou uma manifestação genérica de esperança. É preciso apresentar uma solução viável, detalhada e diretamente relacionada aos argumentos desenvolvidos. Para isso, trabalho com cinco elementos fundamentais: agente responsável, ação a ser realizada, meio de execução, finalidade e detalhamento. Em uma discussão sobre a desinformação nas redes sociais, por exemplo, o Ministério da Educação, em parceria com as secretarias estaduais de ensino, poderia implementar programas permanentes de educação midiática nas escolas, por meio de oficinas de checagem de informações e análise crítica de conteúdos digitais, com a finalidade de desenvolver a autonomia intelectual dos estudantes. O detalhamento deve esclarecer como a medida funcionaria ou qual seria sua abrangência. Quanto mais específica e articulada for a intervenção, maior será a possibilidade de alcançar um desempenho elevado nessa competência.
Quando ensino a estrutura da redação, recomendo a organização em quatro partes bem definidas: introdução, primeiro desenvolvimento, segundo desenvolvimento e conclusão. Na introdução, o candidato precisa conquistar a atenção do corretor e apresentar sua tese com clareza. Uma excelente estratégia é iniciar com uma referência histórica, filosófica, literária, cinematográfica ou sociológica que tenha relação direta com o tema. Em seguida, deve contextualizar o problema e apresentar dois argumentos que serão discutidos nos parágrafos seguintes. No primeiro desenvolvimento, recomendo aprofundar o argumento inicial, utilizando explicações, exemplos, dados ou referências que comprovem o ponto de vista. No segundo desenvolvimento, o estudante deve apresentar outro aspecto do problema, sem simplesmente repetir as ideias anteriores. É importante que cada parágrafo tenha uma função argumentativa específica. Na conclusão, deve retomar a discussão e apresentar a proposta de intervenção completa. Essa organização favorece a progressão textual e impede que o candidato escreva de maneira improvisada.
Outro aspecto que considero decisivo é a construção de um repertório sociocultural diversificado, legítimo e produtivo. Não adianta memorizar frases de filósofos famosos e inseri-las indiscriminadamente em qualquer redação. O repertório precisa dialogar com o tema e contribuir efetivamente para a defesa da tese. Entre as referências filosóficas, recomendo Thomas Hobbes, especialmente sua reflexão sobre a necessidade de organização social; John Locke, com suas ideias sobre direitos individuais; Jean-Jacques Rousseau, ao discutir o contrato social; e Hannah Arendt, cujas reflexões sobre política, responsabilidade e banalidade do mal podem enriquecer debates sobre cidadania e violência. Também considero indispensáveis as contribuições de Zygmunt Bauman, com o conceito de modernidade líquida; Pierre Bourdieu, com a reprodução das desigualdades sociais; Michel Foucault, com suas análises sobre poder e instituições; e Paulo Freire, cuja defesa de uma educação crítica e libertadora oferece excelentes possibilidades argumentativas. Na literatura brasileira, obras como Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e O Cortiço, de Aluísio Azevedo, permitem discutir pobreza, exclusão, desigualdade, marginalização e condições de vida.
No campo cinematográfico e cultural, também incentivo meus estudantes a ampliar seus conhecimentos. O filme Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, é uma excelente referência para discutir desigualdade de classes, relações de trabalho e privilégios sociais. Ilha das Flores, documentário de Jorge Furtado, possibilita reflexões sobre consumismo, desigualdade e desumanização. O Dilema das Redescontribui para debates sobre manipulação algorítmica, privacidade e comportamento digital, enquanto Wall-Epermite discutir consumismo e degradação ambiental. Para temas relacionados à educação, à cidadania e à exclusão, recomendo ainda Escritores da Liberdade. No âmbito jurídico e institucional, a Constituição Federal de 1988, especialmente os artigos 5º, 6º e 205, constitui uma referência extremamente produtiva, pois estabelece direitos fundamentais, direitos sociais e a educação como direito de todos e dever do Estado e da família. O Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Brasileira de Inclusão e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU também podem fundamentar discussões sobre proteção, acessibilidade, igualdade e desenvolvimento social.
Para os candidatos que desejam ampliar ainda mais seu repertório, sugiro estudar algumas referências específicas por eixo temático. Em tecnologia e inteligência artificial, vale conhecer Shoshana Zuboff, autora de A Era do Capitalismo de Vigilância, e o documentário O Dilema das Redes. Em meio ambiente, são relevantes as reflexões de Ailton Krenak, especialmente em Ideias para Adiar o Fim do Mundo, além da obra de Rachel Carson, Primavera Silenciosa. Para saúde mental, o livro A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, permite discutir a pressão pelo desempenho e a exaustão contemporânea. Em educação, Paulo Freire e o documentário Nunca Me Sonharamoferecem importantes perspectivas. Para desigualdade e racismo, recomendo Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, e Quarto de Despejo. Já para discutir violência de gênero e invisibilidade feminina, são pertinentes O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, e Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie. Dados do IBGE, do Ipea, da Organização Mundial da Saúde, da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento também são fontes importantes, desde que o estudante conheça o contexto das informações e não invente estatísticas.
Por fim, quero deixar uma orientação que considero fundamental a todos os meus alunos e aos estudantes que estão se preparando para o ENEM 2026: a redação de excelência não nasce de fórmulas mágicas, de frases decoradas ou da tentativa desesperada de adivinhar o tema. Ela é resultado de leitura constante, atualização, planejamento, prática e, principalmente, consciência crítica. Como professor de Redação, acredito que ensinar a escrever é também ensinar a interpretar o mundo, questionar injustiças e compreender que os problemas sociais não podem ser analisados superficialmente. Minha recomendação é que cada candidato treine diferentes eixos temáticos, produza textos completos, revise suas dificuldades gramaticais e aprenda a utilizar repertórios de maneira estratégica. Não tenham medo de temas desconhecidos: a capacidade de argumentar é construída justamente quando aprendemos a relacionar conhecimentos e experiências. O ENEM pode apresentar uma proposta inesperada, mas quem domina as cinco competências, organiza bem as ideias e sabe defender seu ponto de vista estará muito mais preparado para enfrentar o desafio. Afinal, a nota 1000 não é fruto da sorte: é consequência de uma preparação inteligente, consistente e comprometida.
*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.




