terça-feira, 20 outubro, 2026
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Artigo: Azeite de oliva e abacate – o segredo pode não estar em comer menos gordura, mas em escolher a gordura certa

Por: Arthur Micheloni

Durante anos, a gordura foi considerada uma das grandes vilãs da alimentação (da mesma maneira que vemos acontecer hoje com o carboidrato). Entretanto, novas evidências científicas mostram que a qualidade da gordura consumida pode ser muito mais importante do que simplesmente reduzir sua quantidade.

Quem nunca ouviu alguém dizer que, para emagrecer ou controlar o colesterol, é necessário cortar a gordura da alimentação? Durante muito tempo, essa foi uma das recomendações mais populares entre as pessoas que buscavam uma vida saudável. O problema é que, como acontece frequentemente na nutrição, transformar um nutriente inteiro em vilão pode ser uma simplificação perigosa.

Uma pesquisa científica publicada em 2026, na revista internacional Nutrition & Metabolism, trouxe resultados interessantes sobre esse assunto. Os pesquisadores reuniram dados de 26 estudos clínicos envolvendo 1.244 participantes para investigar os efeitos de uma alimentação rica em ácido oleico, um tipo de gordura encontrado principalmente no azeite de oliva, no abacate e em determinadas oleaginosas.

Os resultados mostraram que dietas enriquecidas com ácido oleico promoveram reduções discretas, porém estatisticamente significativas, nos níveis de colesterol total e LDL (popularmente conhecido como colesterol ruim), quando comparadas a dietas com menor proporção dessa gordura.

E aqui está um ponto importante, não estamos falando de uma pesquisa baseada apenas em questionários alimentares ou observações de hábitos. Os pesquisadores analisaram ensaios clínicos randomizados, nos quais diferentes intervenções alimentares foram comparadas de maneira controlada. Esse tipo de investigação ajuda a compreender melhor os efeitos de determinadas escolhas nutricionais.

Mas por que isso acontece?

Nosso organismo precisa de gordura para desempenhar diversas funções. Ela participa da formação das membranas celulares, da produção de substâncias importantes para o funcionamento do corpo e da absorção de vitaminas como A, D, E e K. Portanto, o problema nunca foi simplesmente consumir gordura, mas entender quais tipos estão presentes na alimentação e em que quantidades.

O ácido oleico pertence à família das gorduras monoinsaturadas. Uma de suas características mais interessantes é que, quando substitui parte das gorduras saturadas da alimentação, pode contribuir para melhorar o perfil de colesterol no sangue.

Imagine uma situação bastante comum, uma pessoa utiliza grandes quantidades de manteiga diariamente e decide substituir parte desse consumo por azeite de oliva. Embora ambos forneçam calorias (o que realmente engorda quando consumido em excesso), suas composições são diferentes, e essa substituição pode favorecer a saúde cardiovascular.

Entretanto, há um detalhe que merece atenção. A pesquisa não demonstrou que o ácido oleico seja capaz de prevenir sozinho infartos ou acidentes vasculares cerebrais, porém, é um ótimo complemento. O benefício observado foi principalmente uma melhora significativa nos níveis de colesterol.

Essa distinção é fundamental, porque uma das maiores dificuldades da comunicação científica atualmente é separar aquilo que um estudo realmente demonstrou daquilo que gostaríamos que ele tivesse demonstrado.

Outro aspecto interessante é que essas descobertas estão alinhadas às recomendações cardiovasculares mais recentes, que destacam a importância de substituir gorduras saturadas por gorduras insaturadas, especialmente dentro de uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes, fibras e alimentos minimamente processados.

Mas isso significa que devemos começar a colocar azeite em tudo?

Claro que não. Uma colher de sopa de azeite fornece aproximadamente 120 calorias. Portanto, adicionar grandes quantidades desse alimento à dieta, sem considerar o restante da alimentação, pode aumentar consideravelmente a ingestão energética diária, fazendo com que você engorde, assim, para quem deseja emagrecer, esse detalhe faz diferença.

O benefício está principalmente na substituição inteligente, e não na ideia de que consumir mais de um alimento saudável produzirá necessariamente resultados melhores.

Na prática, pequenas mudanças podem fazer sentido, como utilizar azeite no lugar de parte da manteiga, incluir abacate em quantidades adequadas (tomando cuidado com o aumento da caloria diária) ou variar as fontes de gordura da alimentação. Nenhuma dessas escolhas precisa ser encarada como uma obrigação ou uma solução milagrosa.

Existe ainda uma reflexão que considero especialmente importante, a nutrição não pode ser resumida a uma disputa entre carboidratos, proteínas e gorduras. Nosso organismo não reconhece modismos alimentares. Ele responde ao conjunto daquilo que consumimos, à quantidade, à frequência e às nossas necessidades individuais.

Uma pessoa pode consumir pouca gordura e ainda apresentar uma alimentação de baixa qualidade. Da mesma forma, outra pode incluir quantidades adequadas de gorduras insaturadas e apresentar excelentes indicadores metabólicos.

É justamente por isso que precisamos ter cuidado com dietas extremamente restritivas, promessas de resultados rápidos e informações que circulam nas redes sociais sem o devido contexto científico.

A descoberta mais interessante dessa pesquisa talvez não esteja no azeite, no abacate ou nas castanhas, mas em algo muito mais abrangente, a saúde não depende apenas da quantidade de alimentos que retiramos do prato, mas também da qualidade daqueles que escolhemos colocar nele.

E, se existe algo que a ciência da nutrição vem nos ensinando, é que comer bem não significa necessariamente comer menos, mas fazer escolhas cada vez mais conscientes.

Porque, no final, a melhor alimentação não é aquela que elimina o maior número de alimentos, mas aquela que oferece ao organismo o equilíbrio necessário para funcionar bem ao longo da vida.

*Arthur Micheloni é Fisioterapeuta, Nutricionista e licenciado em Ciências Biológicas. Possui pós-graduação em Osteopatia, Fitoterapia, Ortopedia e Traumatologia, Nutrição no Transtorno do Espectro Autista e Nutrição Esportiva. Atua com abordagem baseada na Medicina Integrativa, unindo ciência e experiência clínica. drarthur@clinicamicheloni.com

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.