Poucas pessoas ocupam tanto espaço na vida de alguém por tão pouco tempo.
Por: Larissa Cabreira*
Um professor tem cinquenta minutos por aula, uma sala quente, um quadro riscado e a concorrência desleal de um celular dentro do bolso de cada aluno. Mesmo assim, décadas depois, é a frase dele que volta na hora de uma decisão difícil, é o comentário dele na margem do caderno que a gente ainda lembra de cor.
Nenhum outro ofício planta tanto sem nunca ver a colheita.
A história da arte, aliás, é também uma história de aulas. Leonardo da Vinci aprendeu no ateliê de Verrocchio, e a lenda contada por Vasari diz que o mestre largou os pincéis ao ver o anjo que o aprendiz pintou num dos seus quadros, num gesto raro de humildade e de orgulho ao mesmo tempo. Tarsila do Amaral passou por mestres em São Paulo e depois em Paris, com Lhote e Léger, antes de inventar a pintura que hoje reconhecemos como dela. Nenhum gênio nasce sozinho. O que a gente chama de talento costuma ser, na verdade, uma atenção bem cultivada por alguém que um dia resolveu acreditar.
E há um tipo de professor que ensina o que nenhuma técnica ensina, e o de história está entre eles. No meu caso, ele tinha nome e sobrenome, Mirian Ponzio, professora de história..
Foi com ela que aprendi que nenhum acontecimento chega até nós sem alguém que o tenha contado, que toda narrativa tem autor, época e interesse, e que as perguntas mais valiosas são quem escreveu, quem lucrou e quem ficou de fora da página.
Foi ali que comecei a entender que olhar para o mundo também exige aprender a fazer as perguntas certas. E esse olhar eu carrego até hoje, para o mundo e, por consequência, para a arte, que no fim é uma das formas que a humanidade encontrou de contar a própria história. Dela vem também uma lição que nenhum livro didático traz, a de sustentar aquilo em que se acredita sem pedir licença, inclusive quando o assunto são os meus direitos como mulher dentro da sociedade. Ainda é nela que penso quando preciso de coragem.
Repertório, afinal, é a base de qualquer posicionamento honesto, porque só consegue sustentar uma opinião quem sabe de onde ela vem.
A gente raramente tem um único mestre. Esta semana reencontrei a Viviane Binotti, que foi paraninfa da minha turma no terceiro ano do ensino médio, a pessoa que escolhemos para ficar ao nosso lado na hora de atravessar a porta e ir embora. Reencontrar um professor fora da sala de aula é uma experiência curiosa. A gente cresce, ganha coluna em jornal, aprende a falar em reunião, e basta uma ex-professora aparecer na esquina para devolver o corpo inteiro de aluna, com sorriso torto e uma urgência estranha de justificar uma tarefa atrasada. Todo mundo fica um pouco envergonhado, e ninguém admite.
Mas junto da vergonha vem uma coisa mais forte, que é a viagem de volta. Basta um oi para o tempo dobrar, e de repente estou de novo naquela época que, para mim, foi feliz. Sei que para muita gente a escola não significou nada, ou foi dolorosa, e isso merece todo respeito. Para mim foi mágica. E há uma alegria difícil de explicar em descobrir que a pessoa que significou tanto para você um dia ainda guarda um carinho por você hoje. A gratidão, no fim das contas, também sabe voltar pelo mesmo caminho.
Cada professor deixou uma assinatura diferente. Alguns me ensinaram a ser mais durona e a defender aquilo em que acredito. Outros me ensinaram a ler e a escrever, o ofício que hoje me sustenta. Ao professor de matemática, deixo registrado que a dívida segue em aberto, com juros.
Todo artista, mesmo o mais solitário, carrega nas mãos a marca invisível de quem ensinou a segurar o lápis, a olhar duas vezes, a duvidar do primeiro traço. Antes do público, antes da crítica, antes do primeiro elogio de um estranho, houve alguém numa sala de aula que disse “continue”.
É a primeira plateia, e quase nunca recebe ingresso nem aplauso.
Que esta semana, em que celebramos os professores, sirva para lembrar que cada obra tem um mestre escondido no rodapé, e que vale a pena, de vez em quando, procurá-lo na esquina para dizer obrigada.




