A zumbificação das telas.
Por: Sérgio Sant’Anna*
Eu nunca imaginei que viveria para testemunhar um apocalipse zumbi sem precisar sair de casa, ouvir sirenes ou assistir à queda da civilização. Basta caminhar pelas ruas, entrar em um ônibus, sentar em um restaurante ou observar uma praça. Lá estão eles: cabeças inclinadas, olhos fixos em pequenas telas luminosas, dedos inquietos deslizando de um lado para outro. Caminham, mas parecem não perceber o caminho; conversam, mas não escutam; estão cercados de pessoas, mas vivem isolados em seus próprios mundos digitais. Às vezes, tenho a impressão de que The Walking Dead deixou de ser apenas uma série de televisão para se transformar em um documentário sobre o nosso cotidiano.
Lembro-me de quando as pessoas se encontravam e tinham assunto para horas. Falavam do tempo, do futebol, da política, dos amores e até da vida alheia, porque a curiosidade também faz parte da natureza humana. Hoje, sento-me à mesa com amigos e familiares e, antes mesmo de o garçom trazer o pedido, cada um já está mergulhado no celular. O silêncio é interrompido por notificações, vídeos curtos e risadas solitárias diante de alguma publicação. Pergunto alguma coisa e recebo um “aham” automático, sem que ninguém levante os olhos. Sinto-me, então, como um sobrevivente de um mundo que ainda existe fisicamente, mas começa a desaparecer nas relações humanas.
Na série The Walking Dead, os mortos-vivos perambulam pelas ruas em busca de alimento, movidos por impulsos primitivos, sem consciência daquilo que os cerca. O mais assustador, para mim, não é a aparência grotesca dessas criaturas, mas a possibilidade de reconhecermos nelas alguns comportamentos humanos. O pesquisador Neil Postman, em sua crítica à cultura do entretenimento no livro Amusing Ourselves to Death (Amusing Ourselves to Death, 1985), alertava para os riscos de uma sociedade em que a informação se transforma em espetáculo. Penso que, atualmente, a tela não precisa nos devorar literalmente: basta capturar nossa atenção até que nos esqueçamos de olhar para o mundo real.
O filósofo Marshall McLuhan afirmou, em sua célebre reflexão sobre os meios de comunicação, que “o meio é a mensagem”. Essa ideia me faz pensar que o celular não é apenas um aparelho que carregamos no bolso, mas uma ferramenta capaz de modificar nossa maneira de perceber o tempo, o espaço e as pessoas. É claro que a tecnologia aproxima quem está distante, facilita o acesso ao conhecimento e abre portas para inúmeras oportunidades. O problema começa quando a ferramenta deixa de nos servir e passa a comandar nossos hábitos. Quando sinto necessidade de verificar uma notificação durante uma conversa importante, pergunto a mim mesmo quem está no controle: eu ou a máquina?
A literatura já havia anunciado, de diferentes maneiras, os perigos de uma humanidade submetida às próprias criações. Em 1984, de George Orwell, o Grande Irmão vigia os indivíduos e invade sua intimidade; em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, deparamo-nos com uma sociedade seduzida pelo prazer e distraída de suas próprias contradições. Não afirmo que vivemos exatamente nesses mundos fictícios, mas reconheço semelhanças inquietantes. Hoje, entregamos voluntariamente nossos gostos, nossas preferências e parte de nossa intimidade às plataformas digitais. Em troca, recebemos entretenimento personalizado e a sensação de pertencimento. Às vezes, pergunto-me se estamos escolhendo livremente o que vemos ou se estamos apenas seguindo caminhos cuidadosamente preparados para manter nossos olhos presos à tela.
Também me recordo do movimento romântico, que valorizava a subjetividade, os sentimentos e a relação do indivíduo com a natureza, e do Realismo, que procurava revelar as contradições da sociedade sem esconder suas imperfeições. Se um escritor realista do século XIX observasse uma família reunida em uma sala, provavelmente encontraria material para denunciar vaidades e hipocrisias. Hoje, talvez nem precisasse de uma sala: bastaria observar uma mesa de jantar iluminada por celulares. Já o olhar romântico poderia lamentar o desaparecimento das pequenas contemplações, como admirar o pôr do sol, ouvir o canto dos pássaros ou sentir a brisa no rosto. A ironia é que fotografamos paisagens extraordinárias para publicá-las na internet, mas, muitas vezes, mal conseguimos contemplá-las sem a intermediação de uma câmera.
A história também me ensina que as sociedades mudam profundamente quando surgem novas tecnologias e formas de comunicação. A Revolução Industrial transformou o trabalho, as cidades e as relações sociais; a popularização da internet e dos smartphones está modificando a maneira como nos informamos, consumimos e nos relacionamos. Entretanto, nenhuma revolução tecnológica garante, por si só, uma evolução humana. O sociólogo Zygmunt Bauman, ao refletir sobre a modernidade líquida, chamou a atenção para a fragilidade dos vínculos e a instabilidade das relações contemporâneas. Quando observo amizades mantidas apenas por curtidas e relacionamentos interrompidos por mensagens frias, percebo como essa reflexão continua pertinente. Estamos sempre conectados, mas nem sempre disponíveis para criar laços profundos e duradouros.
A música, que tantas vezes expressa aquilo que não conseguimos dizer, também me ajuda a compreender essa contradição. Em “Admirável Chip Novo”, Pitty critica a padronização dos comportamentos e a obediência quase automática a sistemas que determinam como devemos agir. Ao escutá-la, penso nas pessoas que repetem tendências, compartilham opiniões sem verificar sua origem e adotam comportamentos apenas para receber aprovação virtual. Já “Pela Internet”, de Gilberto Gil, celebra as possibilidades de comunicação abertas pela rede, lembrando-me de que a tecnologia também pode ser instrumento de criatividade, liberdade e encontro. Entre essas duas perspectivas está o nosso desafio: aproveitar as possibilidades do mundo digital sem permitir que ele transforme nossa consciência em um mecanismo programado para reagir a cada estímulo.
O cinema reforça essa inquietação. Em Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), de George A. Romero, os zumbis invadem um shopping center, numa imagem que permite refletir sobre o consumismo e a repetição de comportamentos. Em Wall-E, a animação da Pixar apresenta seres humanos tão dependentes da tecnologia que acabam perdendo o contato com o próprio corpo, com a natureza e com a convivência presencial. São ficções diferentes, mas ambas me fazem pensar que a ameaça não está necessariamente nas máquinas, e sim na maneira como permitimos que elas ocupem o espaço de nossa humanidade. Não precisamos esperar um vírus misterioso para perder a capacidade de perceber o outro: às vezes, basta uma tela entre dois rostos.
Certa manhã, decidi fazer uma experiência simples. Saí para caminhar sem retirar o celular do bolso e procurei observar tudo aquilo que normalmente ignorava. Vi uma senhora oferecendo pão aos pássaros, uma criança tentando mostrar um desenho ao pai distraído e dois desconhecidos iniciando uma conversa porque seus cães resolveram brincar juntos. Eram cenas pequenas, quase insignificantes, mas carregavam algo que nenhuma notificação poderia reproduzir: a espontaneidade da vida. Percebi, então, que eu também fazia parte do problema. Quantas vezes deixei de ouvir alguém porque uma mensagem parecia mais urgente? Quantas refeições fotografei antes de saborear? Quantos momentos verdadeiros troquei por alguns segundos de aprovação virtual? Não era justo apontar os dedos para os outros sem reconhecer minhas próprias distrações.
Desde então, passei a acreditar que o verdadeiro antídoto contra essa zumbificação cotidiana não é destruir os celulares, abandonar a internet ou demonizar a tecnologia. É recuperar a capacidade de escolher quando estar conectado e quando estar presente. É guardar o aparelho durante uma conversa, ouvir sem interromper, ler um livro sem consultar notificações e permitir que o silêncio exista sem precisar preenchê-lo com vídeos. Talvez nunca consigamos impedir que as telas continuem brilhando em nossas mãos, mas podemos decidir se elas iluminarão nossa inteligência ou obscurecerão nossa sensibilidade. Quando volto a pensar em The Walking Dead, chego a uma conclusão inquietante: os monstros mais perigosos não são aqueles que caminham sem vida pelas ruas, mas aqueles que, ainda vivos, deixam de perceber a beleza, a dor e a presença de quem caminha ao seu lado. E, antes de procurar um sobrevivente no meio da multidão, talvez eu deva fazer a pergunta mais difícil de todas: será que ainda estou verdadeiramente vivo ou também me tornei um morto-vivo diante da tela?




