quarta-feira, 16 setembro, 2026
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Crônica: Entre a leitura, a redação e o algoritmo – quem ainda ensina a pensar?

Por: Sérgio Sant‘Anna*

Há quase três décadas, como professor de Redação, aprendi que ensinar alguém a escrever é, antes de tudo, ensiná-lo a pensar. A redação do Enem, nesse sentido, nunca foi apenas uma prova de Língua Portuguesa. Ela é uma espécie de radiografia da capacidade do estudante de compreender o mundo, selecionar informações, estabelecer relações, construir argumentos e posicionar-se diante dos problemas sociais. A própria cartilha do Inep define a redação como um texto dissertativo-argumentativo no qual o participante deve defender um ponto de vista, organizar argumentos de maneira coerente e elaborar uma proposta de intervenção social.

Por isso, quando observo a realidade educacional brasileira, uma pergunta me inquieta: como exigir uma redação de qualidade de um jovem que, muitas vezes, está inserido em uma sociedade que lê cada vez menos? A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil trouxe um dado que deveria provocar uma verdadeira comoção educacional: 53% dos brasileiros declararam não ter lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Além disso, o país perdeu aproximadamente 6,7 milhões de leitores em relação à edição anterior. Pela primeira vez na série histórica, os não leitores superaram os leitores.

Esse fenômeno não pode ser interpretado apenas como uma mudança de hábito. A leitura é uma tecnologia intelectual. É por meio dela que aprendemos a interpretar o outro, reconhecer diferentes perspectivas, confrontar ideias e construir nossa própria voz. Paulo Freire compreendeu isso de maneira magistral ao defender que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Antes de escrever uma redação sobre desigualdade, racismo, violência, tecnologia ou crise climática, o estudante precisa ter aprendido a ler a realidade que o cerca. Sem essa leitura do mundo, a redação corre o risco de transformar-se em uma coleção de frases decoradas.

Não por acaso, Antonio Candido compreendia a literatura como um direito humano, justamente porque ela amplia nossa experiência de existência. Machado de Assis, em sua obra, ensinou gerações de brasileiros a desconfiar das aparências; Graciliano Ramos expôs as engrenagens da exclusão social; Carolina Maria de Jesus transformou a experiência da pobreza em literatura e testemunho; Clarice Lispector revelou as inquietações escondidas no cotidiano. Ler esses autores não significa simplesmente acumular repertório para a Competência II do Enem. Significa adquirir novas lentes para enxergar o Brasil.

É nesse ponto que vejo uma das maiores contradições da educação contemporânea. Queremos estudantes capazes de argumentar, mas muitas vezes oferecemos a eles um universo de respostas prontas. Queremos autoria, mas estimulamos fórmulas. Queremos pensamento crítico, mas frequentemente transformamos a redação em uma espécie de receita culinária: introdução pronta, repertório coringa, dois argumentos previsíveis, conectivos previamente escolhidos e uma intervenção que serve para quase todos os temas. O estudante aprende, então, a aparentar que pensa — quando, na realidade, apenas reproduz estruturas.

Essa crise não nasceu com a internet. Ela possui raízes históricas. Durante períodos autoritários da história brasileira, especialmente no Estado Novo e posteriormente na ditadura civil-militar, a circulação de determinadas ideias foi submetida a controles e censuras. Com a redemocratização, a Constituição de 1988 recolocou a educação e a liberdade de expressão no centro do projeto democrático. Hoje, entretanto, o desafio assumiu outra forma: não se trata necessariamente de impedir que o indivíduo fale, mas de perguntar se ele ainda possui condições intelectuais para formular aquilo que deseja dizer.

A música brasileira há décadas denuncia nossas contradições. Em “Comida”, dos Titãs, a frase “a gente não quer só comida” ultrapassa a necessidade material e lembra que o ser humano também necessita de arte, conhecimento, liberdade e experiência cultural. Em “Querelas do Brasil”, Aldir Blanc e Maurício Tapajós revelam um país complexo, contraditório e plural. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros compositores fizeram da canção brasileira uma verdadeira escola de interpretação da sociedade. Uma educação que abandona a música, a literatura, o cinema e as artes em nome de conteúdos exclusivamente utilitaristas empobrece justamente aquilo que deveria formar: a humanidade do estudante.

O cinema também nos oferece metáforas poderosas. Em Sociedade dos Poetas Mortos, o professor John Keating insiste para que seus alunos enxerguem o mundo por outros ângulos. Em Tempos Modernos, Charlie Chaplin apresenta um indivíduo esmagado pela lógica mecânica da produção. Hoje, a pergunta parece atualizada: será que estamos criando estudantes intelectualmente mecanizados por algoritmos? Se ontem a máquina industrial ameaçava transformar o trabalhador em peça, hoje determinados usos da inteligência artificial podem transformar o estudante em mero consumidor de respostas.

Não sou contra a Inteligência Artificial. Pelo contrário: considero-a uma das grandes tecnologias intelectuais do nosso tempo. O problema começa quando a ferramenta deixa de ampliar a capacidade humana e passa a substituí-la. Uma IA pode auxiliar na organização de ideias, apresentar perspectivas, comparar informações, sugerir caminhos e favorecer determinadas aprendizagens. Mas, se o aluno entrega a ela a leitura, a escrita, a interpretação e a construção argumentativa, o resultado é pedagogicamente desastroso: produz-se um texto aparentemente perfeito e, simultaneamente, um estudante cada vez menos capaz de produzi-lo sozinho.

É exatamente nesse cenário que ganha enorme relevância a recente decisão do Conselho Nacional de Educação. Em 1º de setembro de 2026, o CNE aprovou diretrizes nacionais para o uso da Inteligência Artificial na educação e estabeleceu que sistemas de IA não devem ser utilizados para corrigir, avaliar ou atribuir notas a redações e outras avaliações dissertativas.

A orientação reforça que decisões educacionais relevantes precisam preservar a mediação e o julgamento humanos. Como professor de Redação, considero essa decisão particularmente importante. Corrigir uma redação não significa apenas localizar erros gramaticais. Quando leio um texto, procuro compreender o processo de pensamento que está por trás das palavras. Observo a escolha vocabular, a arquitetura argumentativa, a progressão das ideias, a relação com o tema, a autoria, a coerência e até os silêncios. Uma máquina pode identificar padrões linguísticos; entretanto, a educação exige algo que ultrapassa o reconhecimento estatístico: exige compreensão humana.

Há uma diferença fundamental entre corrigir um texto e compreender um estudante. O professor sabe que uma redação não existe isoladamente. Ela é produto de uma história escolar, de experiências familiares, de leituras, de inseguranças, de descobertas e, muitas vezes, de dificuldades que não aparecem em uma tela. O algoritmo enxerga dados; o professor precisa enxergar pessoas. É por isso que a discussão sobre IA na escola não deveria ser uma guerra entre tecnologia e professores, mas uma reflexão sobre os limites éticos da tecnologia.

Michel Foucault, ao discutir os mecanismos de vigilância e controle, mostrou como instituições podem transformar indivíduos em objetos de observação. A escola do século XXI precisa tomar cuidado para não transformar cada estudante em um conjunto de dados, gráficos, probabilidades e indicadores. Hannah Arendt, por sua vez, refletiu sobre a importância do pensamento e do julgamento na vida humana. Em uma época em que máquinas produzem textos, imagens, músicas e respostas em segundos, talvez a tarefa mais urgente da educação seja justamente ensinar o indivíduo a julgar aquilo que a máquina produz.

Também por isso a redação do Enem continua sendo tão importante. Ela obriga o estudante a transformar informação em conhecimento, conhecimento em argumento e argumento em posicionamento. A prova não quer apenas saber se o jovem conhece uma citação de Bauman ou de Paulo Freire. Quer saber se ele consegue mobilizar conhecimentos para interpretar um problema e defender uma perspectiva. A Competência II, por exemplo, exige que o candidato compreenda a proposta e utilize conceitos de diferentes áreas para desenvolver o tema; as demais competências envolvem domínio linguístico, organização argumentativa, coesão e proposta de intervenção.

Entretanto, seria injusto responsabilizar apenas os estudantes pela crise. A educação brasileira precisa discutir seriamente a formação de leitores, a valorização dos professores, as bibliotecas escolares, o acesso aos livros, as condições de trabalho docente e o tempo destinado à leitura. Não basta dizer ao adolescente que ele precisa ler Machado de Assis se a sociedade inteira lhe oferece milhares de estímulos instantâneos e fragmentados, enquanto o livro exige silêncio, concentração, paciência e disponibilidade. A pesquisa Retratos da Leitura mostra, inclusive, que entre aqueles que gostariam de ler mais, a falta de tempo aparece como principal justificativa.

Nesse sentido, penso que a escola precisa recuperar uma ideia aparentemente simples, mas profundamente revolucionária: ler não é perder tempo; ler é ganhar mundo. É por meio da leitura que o estudante encontra Capitu, Fabiano, Macabéa, Riobaldo, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e tantos outros personagens e autores que ampliam sua experiência humana. É por meio dela que descobre que uma mesma realidade pode ser narrada de diferentes maneiras. E é justamente dessa pluralidade que nasce o pensamento crítico.

No fim das contas, a grande questão não é saber se a Inteligência Artificial escreverá melhor do que nossos alunos. Provavelmente, em muitos casos, escreverá. A pergunta verdadeiramente educacional é outra: queremos formar estudantes capazes de pedir uma resposta a uma máquina ou cidadãos capazes de formular perguntas que uma máquina jamais faria sozinha? Entre uma coisa e outra está o futuro da Educação brasileira.

Como professor, continuo acreditando que uma boa redação começa muito antes da folha oficial do Enem. Começa quando uma criança descobre o prazer de uma história; quando um adolescente se indigna diante de uma injustiça; quando alguém lê um poema e percebe que uma palavra pode carregar um universo; quando uma música provoca uma lembrança; quando um filme altera uma certeza; quando uma professora pergunta “mas por quê?” e não aceita como resposta um simples “porque sim”. A redação é apenas o momento em que tudo isso se transforma em linguagem.

Por isso, diante da inteligência artificial, eu não quero uma escola que tenha medo da tecnologia. Quero uma escola que ensine a dominá-la sem ser dominada por ela. Quero professores presentes, leitores inquietos e estudantes capazes de construir a própria voz. Porque, no século XXI, talvez a maior forma de inteligência não seja produzir respostas instantaneamente, mas conservar a capacidade humana de perguntar, duvidar, interpretar e pensar. E, enquanto houver um estudante diante de uma folha em branco tentando descobrir o que pensa sobre o mundo, ainda haverá uma das mais belas tarefas da educação: ensinar alguém a escrever para que, antes de tudo, aprenda a pensar.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.