Palestra e Dia de Campo apresentaram experiência iniciada em 2009 em Taquaritinga; projeto busca reduzir os efeitos das altas temperaturas sobre o cafeeiro e oferece aos estudantes contato com todas as etapas de produção
O curso de Agronomia das Faculdades ITES, em Taquaritinga, promoveu na sexta-feira, 11 de setembro, e no sábado, 12 de setembro, uma programação dedicada ao cultivo de café sombreado, reunindo conhecimento acadêmico, experiência de campo e discussão sobre alternativas de produção adaptadas às características climáticas da região. A reportagem de O Defensor acompanhou os dois dias de atividades e conversou com o professor Eduardo Antonio Gavioli, responsável pelo trabalho desenvolvido com a cultura na instituição.
Com o tema “Café sombreado: sabor, natureza e conhecimento”, a programação começou na sexta-feira, às 19h, com uma palestra destinada à apresentação de conhecimentos e novas perspectivas relacionadas à cafeicultura. No sábado, a partir das 8h, foi realizado o Dia de Campo, quando os participantes puderam conhecer na prática o sistema de cultivo utilizado pela instituição.
Segundo Gavioli, a experiência das Faculdades ITES com o café teve início em 2009, quando começaram o plantio e o desenvolvimento do modelo atualmente trabalhado. A proposta do sombreamento surgiu diante de uma característica importante para a produção local: as temperaturas elevadas de Taquaritinga e região.
O professor explicou que o cafeeiro tem origem associada a condições de maior altitude e temperaturas mais amenas. Diante disso, o calor encontrado na região pode representar uma dificuldade para a planta. Como alternativa, a instituição passou a trabalhar com o café cultivado sob árvores, buscando reduzir a temperatura à qual as plantas ficam expostas.
“Ele é plantado embaixo de árvores para baixar a temperatura”, explicou Gavioli durante o Dia de Campo. O sistema possibilita que os estudantes acompanhem uma forma diferenciada de condução da cultura e observem diretamente os resultados obtidos no ambiente de produção.
Café produzido alcançou 85 pontos em avaliação
Além da adaptação das plantas às condições climáticas, o trabalho desenvolvido no ITES envolve as diferentes etapas necessárias para obtenção de um café de qualidade. De acordo com o professor, não basta produzir um bom grão se houver falhas nas fases posteriores do processo.
Entre essas etapas está a torrefação, apontada por Gavioli como um momento decisivo. Segundo ele, um café de boa qualidade pode perder suas características caso seja torrado de maneira inadequada. Por esse motivo, o projeto desenvolvido com os alunos procura abordar o processo de forma ampla, acompanhando a produção e as fases que interferem no resultado final.
O trabalho já apresentou resultados em avaliações realizadas pela equipe. Conforme informou o professor, o café produzido pelo projeto atingiu 85 pontos na última avaliação, pontuação que, segundo ele, o enquadra como café especial.
Esse resultado também abre uma discussão sobre agregação de valor à produção. Gavioli destacou que cafés diferenciados podem seguir uma dinâmica comercial distinta daquela observada na produção convencional, permitindo trabalhar características específicas de qualidade e valorização do produto.
Para os estudantes de Agronomia, a experiência oferece contato com um modelo que poderá ser analisado e eventualmente reproduzido em outras propriedades após a formação profissional. Nesse sentido, o projeto funciona simultaneamente como espaço de ensino e como demonstração de uma alternativa de cultivo.
Modelo pode atender pequenos produtores
Outro aspecto apresentado durante a entrevista está relacionado à escala de produção. Segundo Gavioli, o café sombreado possui um sistema de colheita mais complexo, o que dificulta sua utilização em grandes extensões de terra.
Essa característica, entretanto, pode tornar o modelo interessante para pequenos produtores, especialmente em uma região onde propriedades menores podem buscar produtos diferenciados e alternativas de maior valor agregado.
O professor apontou justamente essa possibilidade como uma das contribuições do trabalho realizado nas Faculdades ITES. Em vez de pensar exclusivamente em produção de larga escala, o sistema estudado permite aos alunos observar uma proposta voltada a áreas menores e a um manejo específico.
A atividade também possibilita discutir, dentro do ambiente acadêmico, a relação entre produção agrícola, condições climáticas, manejo e qualidade final do produto. A experiência desenvolvida desde 2009 oferece aos estudantes um campo permanente para observar essas variáveis fora da sala de aula.
Alunos participam diretamente do trabalho no campo
A integração entre teoria e prática foi um dos principais pontos destacados por Eduardo Gavioli durante o Dia de Campo. Segundo o professor, embora a equipe docente seja responsável pelas orientações, a parte operacional do projeto é desenvolvida pelos próprios estudantes.
“Toda parte operacional é feita pelos alunos”, afirmou. Para Gavioli, o aprendizado em Agronomia exige que os conhecimentos apresentados teoricamente sejam aplicados diretamente no campo.
A participação permite que os estudantes acompanhem as diferentes fases do cultivo, executem procedimentos e posteriormente observem os resultados. Dessa forma, o café sombreado deixa de ser apenas conteúdo acadêmico e passa a funcionar como uma experiência prática de formação profissional.
Segundo o professor, esse processo é importante para que o aluno compreenda a relação entre aquilo que aprende durante o curso e os resultados encontrados na produção agrícola. A proposta é fazer com que o estudante participe efetivamente do desenvolvimento do projeto, em vez de permanecer somente como observador.
A programação realizada nos dias 11 e 12 de setembro reforçou essa característica. Enquanto a palestra apresentou conhecimentos relacionados ao café sombreado e à cafeicultura, o Dia de Campo permitiu visualizar o cultivo e compreender diretamente o sistema utilizado pelas Faculdades ITES.
O evento também evidenciou um trabalho que já possui 17 anos de desenvolvimento, considerando o início da experiência em 2009. Nesse período, a instituição vem utilizando o cultivo como ferramenta para formação dos estudantes e avaliação de uma alternativa adaptada às condições encontradas em Taquaritinga.
Ao reunir sombreamento, qualidade do café, agregação de valor e participação dos alunos, o projeto proporciona aos futuros agrônomos contato com questões que ultrapassam o plantio propriamente dito. Manejo, colheita, processamento e torrefação fazem parte de uma cadeia em que, conforme destacou Gavioli, cada etapa interfere no resultado.
Para o curso de Agronomia das Faculdades ITES, o café sombreado assume, portanto, uma função acadêmica e experimental. Ao mesmo tempo em que os estudantes aprendem a trabalhar com a cultura, podem observar um modelo pensado para enfrentar as altas temperaturas regionais e conhecer uma possibilidade direcionada aos pequenos produtores.
A realização da palestra e do Dia de Campo levou esse conhecimento para além das atividades rotineiras do curso, apresentando aos participantes uma experiência construída desde 2009 e que atualmente produz um café que alcançou 85 pontos em avaliação, conforme informado pelo professor responsável. Mais do que apresentar o produto final, a programação mostrou o processo que existe antes da xícara e, principalmente, como a formação prática dos alunos está inserida em cada uma dessas etapas.




