Por: Sérgio Sant’Anna*
Dizem que o Brasil é um país de muitas riquezas. Há quem fale das florestas, das águas abundantes, da diversidade cultural ou das belezas naturais espalhadas por seus quatro cantos. Tudo isso é verdade. Mas, existe uma riqueza menos visível e igualmente valiosa: a língua portuguesa, esse patrimônio que carregamos na voz, na escrita e no pensamento.
Todos os dias, sem perceber, o cidadão brasileiro negocia, trabalha, ama, aprende e sonha por meio das palavras. É pela língua que o agricultor vende sua produção, que o médico orienta seu paciente, que o advogado defende um direito e que o professor transforma curiosidade em conhecimento. A língua é o instrumento invisível que sustenta a vida em sociedade. Entretanto, vivemos tempos curiosos. Nunca se escreveu tanto e nunca se leu tão pouco. Mensagens instantâneas, vídeos curtos e respostas apressadas parecem ter reduzido a paciência para os textos mais longos e reflexivos. A velocidade tornou-se prioridade, enquanto a profundidade foi sendo deixada para depois.
O problema é que a pobreza vocabular frequentemente caminha ao lado da pobreza de pensamento. Quando faltam palavras, faltam também ferramentas para compreender a complexidade da realidade. Como observava o filósofo austríaco-londrino Ludwig Wittgenstein, “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Quanto menor o repertório linguístico, menor tende a ser o horizonte de compreensão.
Por isso, incentivar a língua portuguesa não significa apenas corrigir regras gramaticais ou exigir redações escolares. Significa despertar nos jovens e nos adultos o prazer de descobrir novas palavras, novos significados e novas formas de enxergar a existência. Cada palavra aprendida amplia um pouco mais a capacidade de interpretar a vida.
Nesse processo, a leitura ocupa um papel insubstituível. Nenhum aplicativo, nenhuma tecnologia e nenhum resumo conseguem substituir a experiência de mergulhar em um livro. A leitura expande o vocabulário, fortalece a imaginação, desenvolve a concentração e estimula o pensamento crítico. Não por acaso, os grandes transformadores da sociedade foram também grandes leitores. O educador brasileiro Paulo Freire ensinava que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Porém, ambas caminham juntas. Quem aprende a interpretar um texto aprende também a interpretar a realidade que o cerca.
Machado de Assis, filho de uma família humilde e autodidata, encontrou nos livros o caminho para se tornar um dos maiores escritores da língua portuguesa. Sua trajetória demonstra que o conhecimento pode romper barreiras sociais aparentemente intransponíveis. A educação continua sendo uma das formas mais eficazes de mobilidade social. A literatura brasileira está repleta de exemplos que revelam o poder da palavra. Em Graciliano Ramos, percebemos a denúncia das desigualdades; em Clarice Lispector, a investigação da alma humana; em Carlos Drummond de Andrade, a reflexão sobre a vida cotidiana. Cada obra amplia a visão de mundo do leitor e o torna mais consciente de si mesmo e da sociedade.
Além da literatura, a música popular brasileira também ensina o valor da língua. De Chico Buarque a Belchior, de Gonzaguinha a Caetano Veloso, encontramos composições que combinam beleza estética e reflexão social. A arte demonstra que as palavras podem emocionar, questionar e transformar. Talvez seja por isso que regimes autoritários, ao longo da história, sempre tenham temido leitores e intelectuais. Quem lê desenvolve autonomia. Quem domina a língua argumenta. Quem argumenta questiona. E quem questiona dificilmente aceita passivamente as injustiças do mundo.
A escola, portanto, possui uma missão que vai muito além da aprovação em exames ou vestibulares. Seu papel é formar leitores, escritores e cidadãos capazes de interpretar informações, distinguir fatos de opiniões e participar ativamente da vida democrática. Ensinar língua portuguesa é ensinar liberdade.
No fim das contas, investir na língua portuguesa é investir no próprio Brasil. Cada livro lido, cada texto escrito e cada conversa significativa representam pequenos passos rumo a uma sociedade mais consciente, crítica e humana. Afinal, as nações são construídas por estradas, pontes e edifícios, mas também pelas palavras que seus cidadãos aprendem a compreender, a valorizar e a compartilhar.



