Por: Sérgio Sant’Anna*
No último sábado (22), no programa Altas Horas, o sempre sagaz Serginho Groisman ouviu de Caetano Veloso uma frase que parece ter sido escrita para os dias atuais: “O mundo tá doido, mas o samba cura”. Abrigarei a música de maneira geral diante deste conceito específico do mestre baiano. E cura mesmo. Cura aos poucos, como quem assovia no caos para não enlouquecer. Porque enquanto o noticiário anuncia tragédias em série e as redes sociais transformam gente em tribunal, ainda existe alguém colocando um samba na vitrola para lembrar que a alma também precisa respirar.
Vivemos uma época de ansiedade coletiva. As pessoas acordam cansadas, dormem culpadas e passam o dia inteiro tentando provar produtividade. O filósofo Byung-Chul Han chamou isso de “sociedade do desempenho”: sujeitos exaustos tentando ser máquinas felizes. Talvez por isso a música tenha virado um pequeno ato de resistência. Quando Cartola escreveu “rir pra não chorar”, em “O Mundo é um Moinho”, ele não falava apenas de amor; falava da condição humana inteira.
Há dias em que o brasileiro parece sobreviver apenas porque existe samba. O ônibus atrasa, o salário desaparece antes do fim do mês, a política desafina, mas alguém coloca “Aquarela do Brasil” para tocar e o peito lembra que ainda existe beleza. Ary Barroso compreendia como poucos essa capacidade de transformar país em melodia. Afinal, um povo que canta suas dores dificilmente morre em silêncio.
No fundo, o samba sempre foi um manual de sobrevivência emocional. Paulinho da Viola dizia: “meu mundo é hoje”. E talvez seja exatamente isso que nos falte: viver o presente sem a tortura constante do amanhã. Em tempos de metas inalcançáveis e gurus vendendo felicidade em parcelas, ouvir um cavaquinho numa esquina ainda parece mais verdadeiro do que metade dos discursos motivacionais da internet.
Outro dia, atravessando o centro da cidade, vi um homem varrendo a calçada enquanto cantava “Trem das Onze”. Havia algo de profundamente filosófico naquela cena. Adoniran Barbosa entendia o cotidiano do povo como poucos escritores entenderam. Seus sambas eram crônicas cantadas. Talvez Machado de Assis tivesse ironizado a sociedade; Adoniran, porém, abraçou suas rachaduras com humor e ternura.
A verdade é que a música brasileira funciona como memória afetiva coletiva. Quando toca “Asa Branca”, o sertão inteiro reaparece na alma nacional. Luiz Gonzaga transformou seca em poesia e saudade em sanfona. “Quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João”, cantava ele, e ali estava o Brasil inteiro cabendo dentro de um verso.
Enquanto isso, as novas gerações deslizam o dedo pela tela numa velocidade absurda. Escutam quinze segundos de música e já passam para outra. Zygmunt Bauman chamaria isso de liquidez emocional: tudo rápido, tudo descartável, até os sentimentos. Mas a música boa exige permanência. Ninguém compreende “Construção” em quinze segundos. Chico Buarque escreveu verdadeiras arquiteturas humanas em forma de canção.
E há ainda os sambas que parecem abraçar a gente depois de um dia ruim. Nelson Cavaquinho dizia que “o sol há de brilhar mais uma vez”. Em tempos de depressão silenciosa e solidão digital, talvez esse verso seja mais terapêutico do que muito discurso vazio de positividade tóxica. O samba nunca prometeu vida perfeita; apenas ensinou dignidade diante do sofrimento.
Também impressiona como a música brasileira dialoga com a literatura. Vinicius de Moraes transformou a bossa nova em filosofia sentimental. Chega de Saudade praticamente ensinou o país a sofrer com elegância. E Tom Jobim parecia compor paisagens sonoras onde o amor e o mar conversavam em silêncio.
Mas talvez o maior milagre da música seja sua capacidade de unir desconhecidos. Num churrasco, num bar ou numa roda improvisada, basta alguém puxar “Deixa a vida me levar” para surgir um coral espontâneo de gente cansada tentando acreditar no amanhã. Zeca Pagodinho virou quase um filósofo popular do brasileiro comum: alguém que compreendeu que viver também exige leveza.
No meio de tanta brutalidade cotidiana, a arte ainda nos devolve humanidade. Quando Cazuza cantou “o tempo não para”, talvez estivesse avisando que o caos é permanente, mas a beleza também pode ser. E quando Gilberto Gil afirmou que “a fé está viva dentro de nós”, falava de algo maior do que religião: falava da esperança teimosa que insiste em sobreviver.
Por isso, talvez Caetano Veloso tenha razão. O mundo tá doido. Muito doido. Há excesso de ódio, falta escuta, sobra vaidade e escasseia silêncio. Mas enquanto existir alguém dedilhando um violão na varanda, uma roda de samba num domingo ou um rádio antigo tocando O Que É, O Que É? perguntando “viver e não ter a vergonha de ser feliz”, ainda haverá cura possível. Porque a música brasileira não é apenas trilha sonora; ela é abrigo.


