Artigo: O meio define-nos

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Por: Prof. Sergio A. Sant’Anna*

Entre um texto e outro escrito com frequência, há sempre uma pausa para que a leitura seja realizada. Não é possível que você escreva, que tenha ideias, que consiga organizar seus pensamentos sem ler. Pode ser possível diante de uma realidade em que o senso comum faça parte do seu discurso, todavia deixamos os limites do bom senso e tratemos de amenidades, algo normal, hoje, em um País que anseia por decisões e posições mais profundas e que só recebe excrementos como soluções.

Certa vez, isso há alguns anos, precisamente 21 anos, uma mãe chegou até mim e me disse: “Professor, minha filha escreve muito bem, adora poesias, seus textos se assemelham aos sonetos de Vinícius de Moraes”. Vi que a mãe conhecia sobre a estrutura poética ao apresentar-me o soneto, composição frequente em inúmeras Escolas Literárias – a Segunda Geração Modernista, a qual Vinícius de Moraes fez parte foi uma delas. Confesso ter ficado feliz, contente pelo feito juvenil, porém decidi indagá-la: “Sua filha, portanto, é uma leitora contumaz”.  Respondeu-me que não, que sua menina execrava a leitura. Logo pensei que os textos não seriam bons, pois a leitura é o combustível, assim como as vivências para a elaboração de argumentos; contudo, apenas a leitura é capaz de oferecer os requisitos estruturais para o progresso do texto. E de fato a minha premissa vingou. Poesias que só a mãe adoraria. Vinícius pulava em seu leito mortal e versaria: “O uísque é o cachorro engarrafado, ou seja, o melhor amigo do homem”. Desce mais um, garçom!

Todas as aulas e palestras que inicio sobre Redação, Escrita Criativa, Teoria da Argumentação, digo aos alunos que sem a leitura será difícil começar, assim, o primeiro passo é sentar a bunda na cadeira e começar a ler. Devorar todos os periódicos, principalmente se você é um concurseiro ou vestibulando, pois necessitará da atualidade, e, consequentemente, de opiniões que possam alimentá-lo à reflexão. E isso é válido para esses pseudoleitores contemporâneos, ancorados em manchetes como reveladoras de conhecimento. Leitores sem paciência. Leitores sem reflexão. Leitores sem análise. Antes de ser um produtor de textos exemplar, nota mil ou acadêmico de sucesso, um debatedor com argumentos, és necessário que sejas um exímio leitor. Que tenha passado pelos clássicos, mas que também possas ser versátil, tenha lido obras atuais, assista filmes e séries, goste de música e aprecie a História (não essa distorcida pelos amantes das fake news). Serei ingrato se não citar a importância da Filosofia diante do progresso da feitura do texto, principalmente a Hermenêutica. Todavia, qualquer parte desta “Matrix” das demais áreas é vital.  O aluno tem que entender que essa leitura que ele faz pelas redes sociais é insuficiente diante do bom senso. A informação é determinante, porém se ela não for digerida e transformada, será apenas um elemento a preencher o seu HD e nada mais. O que precisamos são de aulas de Redação que façam com que o aluno, também, reflita, pense, critique, seja autônomo em seus pensamentos, desde que amparado em argumentos sólidos e persuasivos.

Portanto, resta a junção de forças entre as diversas áreas, hoje proposta pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular) estabelecer de fato a interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, algo esquecido, requisitado pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), entretanto abandonada pelos fatores que se aglomeram e, também, impede-nos de pensarmos. Isso de maneira proposital, pois há um grupo orquestrado para que o conhecimento não seja disseminado, apenas a verdade que a eles convêm. Somos tragados pelo meio, Rousseau!

*Prof. Sergio A. Sant’Anna – Professor de Redação nas Redes Adventista e COC em SC e jornalista.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas nacionais e mundiais e de refletir as distintas tenências do pensamento contemporâneo.

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