Artigo: Qual é o futuro que te espera?

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Por: Prof. Sergio A. Sant’Anna*

Ao entrar em contato com o título que encabeça estes meus escritos, confesso não ter uma resposta precisa para levar aos meus leitores. Avesso às ciganas espalhadas pelas ruas de comércio intenso nos centros urbanos, e, também, do futuro já escrito, ainda que isso me martele o cérebro, não seremos eternos. Talvez nunca sejamos lembrados, nem mesmo como nomes de algum logradouro público. Apenas mais um dentre os milhões de cidadãos espalhados por esse imenso território brasileiro (como as 441 mil pessoas vítimas do coronavírus). Algumas mensagens pelas redes sociais aos parentes do falecido e mais nada. Passados alguns dias, ninguém mais se lembrará. Infelizmente agimos assim. Somos antagônicos à empatia, duvidamos do altruísmo, preferimos à caridade para sanar aos nossos pecados apenas. A barca para o inferno, presente no porto, capitaneada pelo Diabo e seu companheiro, personagens do “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente – um crítico ferrenho à sociedade de sua época – deveria resgatar a esses que banalizaram a morte.

Qual a necessidade de se falar sobre esse assunto? Ao reler o conto “Baleia”, de Graciliano Ramos, atenho-me a alguns sinais difundidos pelo regionalismo neorrealista do autor alagoano em que a animalização do ser humano e a pessoalização do animal são apresentados. Estamos enraizados no conceito de que as desigualdades são banais, nosso cotidiano sendo narrado, e com isso deixamos de perceber, calados e sem sustos, a desumanização do Homem diante destes olhos que um dia a terra fértil consumirá. Não há nada demais abordar o assunto morte, ou seja, a representação do destino humano; há um erro em tratar essas milhares de mortes, principalmente as que se avolumam devido à Covid-19, como banais. Vítimas de uma doença sem controle. Seres humanos, que poderiam estar entre nós, porque se vacinas não tivessem sido ignoradas por mentes negacionistas que controlam o Executivo brasileiro, não estaríamos diante deste caótico momento.

Baleia, no conto composto pelo modernista pertencente à geração de 1930, é apresentada pelo narrador observador como doente, portanto, é condenada por Fabiano à morte. Morte decretada a todos aqueles, que infectados pela doença deverão ter suas vidas abrandadas pela interrupção da vida. Algo natural para os negacionistas. É assim que age nosso presidente da República. Em nome de sua abjeta gestão, confinada a um cercadinho, demoniza adversários políticos, viaja pelo Brasil em nome de sua reeleição e propaga a aglomeração e o não uso de máscaras como normais. O leitor pode estar se questionando sobre Baleia ser apenas uma cadela, que tem sonhos, e que a morte viria para abrandar à sua fome e satisfazer-lhe com os preás no céu, porém a sua relação com a família é de intimidade, uma filha que o casal Sinhá Vitória e Fabiano não tiveram, e que através desse neorrealismo é nominada, valorizando-se muito mais que os filhos do casal quando não recebem nomes. Bolsonaro dá muito mais importância à sua perpetuação no poder do que para essa pandemia que persiste diante de nossa Nação. Enquanto países, que enfrentaram esse trágico momento com rigor, e hoje retornam aos dias quase normais, caminhamos a passos curtos com a promessa de uma terceira onda da covid-19. Sinal claro da ingerência presidencial diante desta crise.

Vejo vários amigos dando adeus aos seus familiares sem ao menos um velório decente. Despedidas dinâmicas, assoladas pelo descaso e o enterrar de corpos, que para os negacionistas deveria acontecer. Era inevitável. O banalizar dessas mortes é típico de seres humanos ausentes de empatia, castigados pela vida, incapazes de enxergar que é possível viver, lutar, contrariar a essa história de que tudo está escrito e que devemos aceitar de maneira passiva a partida de nossos irmãos. Enquanto continuarmos a encontrar desculpas para o descaso e a matança provocados por uma gestão inescrupulosa que governa o País, veremos nossos entes, amigos e outros seres humanos sendo executados por “fabianos” ou um vírus, que poderiam ser controlados se a empatia os atingissem. Fabiano desconhecia-a devido a crueldade da seca. Mas, e Jair Messias Bolsonaro? Aguardaremos o futuro?

*Prof. Sergio A. Sant’Anna – Professor de Redação nas Redes Adventista e COC em SC e jornalista.

**Os artigos assinados não representam a opinião de O Defensor!

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