Clarice eterna: Macabéa a metáfora do Brasil

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Por: Prof. Sergio A. Sant’Anna

Lá se vão 100 anos de Clarice Lispector. Clarice nasceu na Ucrânia, na aldeia Tchetchenilk, no ano de 1920. Os Lispector emigraram da Rússia para o Brasil no ano seguinte, e Clarice nunca mais voltou à pequena aldeia. Fixaram-se em Recife, onde a escritora passou a infância. Clarice tinha 12 anos e já era órfã de mãe quando a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Entre muitas leituras, ingressou no curso de Direito, formou-se e começou a colaborar em jornais cariocas. Casou-se com um colega de faculdade em 1943. No ano seguinte publicava sua primeira obra: “Perto do coração selvagem”. A moça de 19 anos assistiu à perplexidade nos leitores e na crítica: quem era aquela jovem que escrevia “tão diferente”? Seguindo o marido, diplomata de carreira, viveu fora do Brasil por quinze anos. Dedicava-se exclusivamente a escrever. Separada do marido e de volta ao Brasil, passou a morar no Rio de Janeiro. Lispector fora estupenda. Suas obras carregam em suas personagens as regiões mais profundas e complexas da mente humana. Seguem o fluxo do pensamento, alimentam-se através de sua “sentidora”, como a escritora ucrânia-brasileira intitulava-se. Apesar da sua vasta lista de obras inesquecíveis (“Laços de Família”, “A paixão segundo GH”, “Lustre”, “A cidade sitiada”, “A maçã no escuro” etc.), é em “A hora da estrela” que observo o Brasil representado. Sim, este Brasil. Governado pelas traças, mastigando papel, sorridente diante do arco-íris, esperançoso diante de um país que não existe. Macabéa é a metáfora do Brasil.

Segundo Rodrigo S.M, o narrador de “A hora da estrela”, um escritor à espera da morte: “Há o direito ao grito. Então eu grito”. Estamos no chão de paralelepípedos feito Macabéa. A vida nos parece um soco no estômago, pois morrer é um instante. A epifania que dá sabor a esta obra específica de Clarice Lispector é a mesma que desce pelo tubo digestivo dos brasileiros à espera de uma solução. A cada eleição uma esperança, novos alimentos e o mesmo sabor. Somos enganados por cartomantes como Madama Carlota, acostumada a vender mentiras em troca de alguns trocados. Viciamo-nos na busca pelos compêndios de autoajuda (uma das Madamas Carlotas), alicerçamo-nos nos discursos vazios difundidos pelo vocabulário pomposo e a eterna magia brotada do verbo “ludibriar”. Somos instantes, somos momentos, somos alegria, a tudo uma festa, uma comemoração; somos confusão, somos multidão, somos explosão, infelizmente não somos razão. Encantamo-nos apenas pelos sibilos da Persuasão. Fomos condenados feitos Sísifo.

 As cenas de violência programadas pela TV, no sofá de casa, desacompanhadas de visão crítica, encobrem nossa sensibilidade, pois a repetição amorteceu o impacto desse terror. Fomos ludibriados com os fogos de artifício ou o arco-íris que fazia Macabéa feliz. Roupas da posse presidencial figuram como pauta principal na agenda do Executivo, enquanto centenas de pessoas perdem a vida para a Covid-19, pois a vacina se apresenta, todavia a guerra partidarizada impede que as trombas se abaixem e possamos ser vacinados. Estamos olhando para a estupidez escancarada, a violência banalizada, o descaso para com o próximo e vislumbramos um futuro luxuoso. As palavras entorpecem-nos, e o discurso patriótico, misturado ao religioso, salgado à bravura doentia carrega o gado como o berrante do ponteiro ao carregar sua encomenda ao abatedouro. A dúvida: este lobo se transvestiu de cordeiro ou será que está nu?

Hoje, escutamos a música feito Macabéa em seu quarto e bailamos feitos baratas tontas. Mastigamos papel para enganar a fome… Clarice eterna!

*Prof. Sergio A. Sant’Anna – Professor de Redação nas Redes Adventista e COC em SC e jornalista.

**Os artigos assinados não representam a opinião de O Defensor!

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