Artigo: Oxalá!

Prof. Sergio A. Sant’Anna*

No dia 20 de novembro deste ano fatídico de 2020, meu pai, completaria 66 anos. Porém, faleceu antes. Foi levado pelo destino no dia 11 de setembro deste ano. Detalhe: duas datas significativas. A última, uma catástrofe para o mundo. Um atentado, que a cada ano faz milhares de vítimas pelos arredores do Globo. Um momento em que as imagens dos aviões chocando-se às torres eclodiam. Lembro-me da reação dos colegas professores. Atônitos. Sem palavras. A televisão mostrava a cena ao vivo. Eu, estarrecido na sala dos professores, esperando pela próxima aula. Sabia que o assunto nas classes seria esse, durante o dia e nas próximas semanas. Confesso, que o 11 de setembro, após a morte do nosso patriarca, decretou-se como o pior dia de nossas vidas. Já o Vinte de Novembro sempre foi um momento de luta, história, combate. Adolescente, lembro-me das reuniões em que meu pai e o Gilberto Paulino (Chicletão) organizavam em busca da Fundação da Comunidade Negra “João Malaia Maria” em Taquaritinga. Ainda sem computador, acompanhei o meu pai datilografando inúmeras páginas em busca da legalidade da Instituição. E o Gilberto sempre ao lado. Um “gentleman”. Em busca da pacificação e fortalecimento da Comunidade Negra.

Participei de inúmeras palestras organizadas pelo “Chicletão”. Ele levava, através das exposições, teatro, dança, música e debates, a cultura negra à Escola, muito antes de ser fixada como obrigatória diante do conteúdo escolar. Minha pauta era sempre a Literatura, os escritores negros e as obras, cuja cultura africana se fazia presente. Quando meu pai faleceu, o Luisinho Bassoli, advogado, professor e articulista deste semanário, enviou-me uma homenagem que o mesmo o fizera ao jornalista Tuca Sant’Anna no dia 20 de novembro. O então presidente da Câmara de vereadores de Taquaritinga, Luisinho, conferiu ao meu pai a homenagem dada a figuras taquaritinguenses que lutam em prol da causa negra. Confesso que este fora um momento jamais esquecido pelo meu pai. Tinha orgulho em dizer que nascera no dia 20 de novembro e que fora, também, homenageado nesta data. Desde criança nos contava sobre o Quilombo dos Palmares e seu líder Zumbi, e nos conduzia ao desfecho de 1695, em que Zumbi fora executado pela súcia do bandeirante português Domingues Jorge Velho. Sabíamos que essa luta não poderia parar. Que atitudes como a que a Câmara de vereadores de Taquaritinga realiza, ao homenagear os ilustres taquaritinguenses no dia 20 de Novembro, faz-se deveras importante. Vital. Um exercício democrático que deveria se ampliar, principalmente hoje, momento em que o racismo emerge e é bradado por figuras ditas ilustres da sociedade brasileira.

Gestos assim não devem ser isolados, a miúdos; gestos como este não podem ser resumidos, significativos apenas naquele momento. Celebrar o 20 de Novembro é rememorar o cidadão brasileiro de que temos um compromisso contra a onda de racismo que se espalha pelo mundo. Lembrar-nos que pessoas negras, em especial jovens mulheres, continuam sendo as que mais são mortas no Brasil, especialmente em ações policiais – muitas delas, inocentes como a menina Ágatha Vitória, de 8 anos, baleada em 2019 no Complexo do Alemão, enquanto voltava para casa com sua mãe.  Dados do Estudo Desigualdade Racial por Cor ou Raça no Brasil, realizado em 2018 pelo  IBGE, apontam que o rendimento médio domiciliar per capita de pretos e pardos no Brasil era de R$ 934, enquanto o de brancos era quase o dobro, chegando a R$ 1.846. Em relação ao mercado de trabalho, a maior diferença de rendimento é entre homens brancos e mulheres negras. Elas recebem menos da metade do que os homens brancos. Além disso, menos de 30% dos cargos gerenciais são ocupados por pretos ou pardos, enquanto 68,8% são ocupados por brancos.

E não paramos por aí, os números são muito mais brutais, ainda açoitam, chicoteiam, excluem. Indicadores relacionados ao acesso ao saneamento básico: 44% das pessoas pretas ou pardas não possuem nenhum serviço do tipo no Brasil. Com relação às pessoas brancas, esse número cai para 26,7%. A desigualdade também está presente no âmbito educacional. Estudos revelam que a taxa de conclusão do Ensino Médio de alunos pretos ou pardos é de 61%, enquanto a taxa da população branca atinge 76%. Em 2015, a Pesquisa Nacional da Saúde Escolar, realizado pelo IBGE, com alunos do 9º ano, mostrou também que mais estudantes pretos ou pardos são expostos a situações de violência durante o ano escolar que estudantes brancos. Eles também correm mais riscos no trajeto até o colégio. Levando em escolas públicas e privadas, calcula-se que 53,9% de estudantes negros estudam em áreas de risco em termos de violência contra 45,7% de alunos brancos. Quando o assunto é violência doméstica, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2019, 29,8% das vítimas de feminicídio têm entre 30 e 39 anos, 70,7% têm apenas o Ensino Fundamental completo e 61% são negras. É importante também saber que pretos têm 62% mais chance de morrer por COVID-19 em São Paulo, por exemplo, epicentro do coronavírus no Brasil, segundo levantamento do Observatório da Covid-19 e da Prefeitura de São Paulo.

O negro não pode ser mais enxergado como estatística, como aquele que clama por cotas (um direito), retratado como o empregado em telenovelas ou ausentes da bancada de um telejornal, execrados e perseguidos em shoppings, distante de um púlpito em sala de aula, precisamos sim ser respeitados, tratados com dignidade. Não só por uma Constituição e leis vigentes, todavia pelo fato de sermos seres humanos. Neste dia Vinte de Novembro não teremos mais a companhia física do meu pai, porém lembraremos com amor desta e continuaremos escrevendo, debatendo, dando aulas e enfatizando que o negro, também, é um cidadão. Oxalá!

**Prof. Sergio A. Sant’Anna – Professor de Redação nas Redes Adventista e COC em SC e jornalista.

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