Genézio de Barros: O ‘caipirinha’ do interior que foi ser galã na capital

Artista global fala sobre sua carreira e conta dos projetos para o próximo ano.

Retratar uma história de vida, transformando-a em texto jornalístico não é difícil, embora um tanto complexo. A dificuldade faz morada quando há a vontade de expressar todo o sentimento envolvido durante a entrevista, além das entrelinhas.

Nascido no dia 11 de junho de 1950 em Taquaritinga, Genézio de Barros é literalmente o artista quando o assunto é sensibilidade, intelectualidade, simpatia, simplicidade, educação e muita, muita cultura. A equipe de O Defensor teve o prazer de conhecer um pouco mais deste ator global taquaritinguense, que alçou voo da Cidade no início dos anos 70, quando terminou o ensino médio.

Com destino a São Paulo, o artista almejava cursar Comunicações na ECA (Escola de Comunicações e Artes), uma das divisões da USP. Em busca de um cursinho para iniciar a carreira profissional, o sonho de cursar cinema começou a falar alto.

O sustento na capital promissora veio do Banco do Estado de São Paulo (antigo Banespa), onde Genézio passou a ser funcionário concursado. Assim, pôde entrar na ECA e conhecer o cinema.

A princípio, o taquaritinguense frequentou oito meses de ECA até descobrir que a escola de arte dramática é um departamento da Escola de Comunicações e Artes e, por ser autônoma, seria preciso prestar um exame de seleção. Tratava-se de um teste vocacional à parte. Após ingressar na escola de arte dramática, o até então iniciante ator não apenas reafirmou o que queria, como também encontrou uma paixão: encenar.

A aceitação da família não foi fácil para Genézio, segundo filho mais velho entre seis irmãos, especialmente em um tempo em que o teatro não era visto com bons olhos perante a sociedade, além de toda instabilidade financeira que a profissão envolvia. Para os pais do ator, a decisão pelo teatro oscilava entre loucura e ousadia. Hoje, é sabido que tudo o que envolvia as escolhas da época foram fundamentais para seu sucesso.

“Naquele momento eu saí do banco e procurei ser feliz. Na vida é preciso procurar o que quer e ter coragem. Não pode ter medo de arriscar. Eu arrisquei muito e muita coisa. Graças a Deus não me arrependo”, enfatiza o artista.

Com o tempo, a satisfação foi batendo à porta de seus familiares, que passaram a apoiá-lo cada vez mais. “Consigo me lembrar da primeira vez que meu pai me viu no palco. Ficou tão surpreso que não reconheceu me atuando. Apesar de toda dificuldade de aceitação no início de minha carreira, acredito que no final da vida, ele estava muito orgulhoso de mim”, emociona-se.

Na bagagem, o conterrâneo carrega mais de 50 peças de teatro ao longo desses anos. Em meio a cinema, televisão e teatro, quando questionado sobre sua preferência de atuação, Genézio enfatizou com brilho nos olhos o imediatismo do palco, do “suor dado” ao que deve ser trabalhado sem improvisos. O artista não poupou detalhes ao contar sobre sua paixão pelo teatro, sobre a maneira envolvente que a peça, embora permitindo ensaios, deva ser concluída no “agora”.

Durante o papo descontraído, ao tentar elucidar os motivos que o levou a toda mudança de vida, ilustrou: “Sempre senti uma energia forte que me movia, uma vontade, um prazer. Algo que nem sei explicar. Como pode um caipirinha lá do interior, sair e ir atrás dessa profissão. Mas é aquilo… o que move a pessoa a ir atrás das coisas, do que quer”.

Em relação ao início, Genézio considera a dificuldade financeira como o maior desafio encontrado. “Era tudo muito difícil. Nesta profissão, dinheiro é muito incerto, bem por isso muita gente desiste desse sonho. Eu mesmo já fiquei um ano e meio afastado. Principalmente depois de casado, com filhos. Era preciso um trabalho mais estável, que permitisse um planejamento. Porém, não consegui ficar distante, comecei a ficar numa infelicidade total. Não podia mais abandonar, mesmo que fosse ficar na miséria. O tempo te adapta a ter um planejamento. É preciso um lastro. Uma economia que te garante um tempo caso seja necessário. É preciso se manter seguro para seguir com a profissão”, argumenta.

Para o ator, não adianta estar bem financeiramente e não ser feliz. Ele conta que às vezes reencontra antigos colegas que desistiram e pretendem voltar a atuar. “É difícil. Quando você perde o bonde, você sempre irá correr atrás. A oportunidade não pode ser perdida”, ressalta.

Casado há 36 anos com a arquiteta, cenógrafa e figurinista paulistana, Marisa Rebollo, Genézio de Barros carrega muita história a ser contada, começando pelos bastidores, onde o casal se conheceu. Duas lindas e independentes filhas complementam a família do ator. A mais velha seguiu a carreira de artista plástica e, bem sucedida em sua área, já participou de renomados eventos como cinegrafista. A caçula é modelo fotográfica em Tóquio.

Genézio contou o quanto se empenhou para que as meninas pudessem ter liberdade de escolha sobre seus próprios caminhos. Para isso, além de todo o apoio, fez questão que o estudo e viagens estivessem sempre presentes na vida das filhas. Foi a maneira de abrir a mente e prepará-las para o mundo.

Diante de tantos trabalhos já desenvolvidos, o artista não soube dizer qual foi o personagem mais especial. “Personagem mais marcante é o último que você fez”, conta entusiasmado. Contudo e, de acordo com todos os pensamentos bem colocados a respeito da vida, através da maneira gostosa que Genézio consegue nos transmitir o que sente, ainda vive na memória de todos os fãs globais o personagem do “vô Pedro”, vivenciado na novela “A Favorita” em 2008.

“O Pedro teve uma repercussão incrível, especialmente na época da A Favorita. Era complicado até sair na rua. Aqui em Taquaritinga as pessoas viviam indo à minha casa. A força da televisão é incrível e às vezes esquecemos que ela existe”, relata sobre o reconhecimento do público.

Genézio contou com emoção algumas situações sobre as diversas formas de carinho ao longo dos anos dedicados à profissão. “Somos reconhecidos em todos os lugares, até mesmo naqueles que não imaginamos”, afirma com o olhar sorrindo.“Não sou uma pessoa famosa, sou uma pessoa conhecida. Sou sempre lembrado pelo personagem, não pelo meu nome”.

Durante a conversa, Genézio comentou também sobre os artistas taquaritinguenses que estão despontando no teatro, a exemplo do GabrielMiziara, do Tiago Luchi, dentre tantas pessoas que também saíram da Cidade em busca de seus sonhos.“Às vezes, tropeço em alguém na capital que diz ser de Taquaritinga e está lá fazendo cursos e tentando a vida”, conta orgulhoso.

Aos colegas de profissão e àqueles que pretendem seguir a carreira, o ator global orienta ter foco. “Tudo começa pelo teatro e o início é muito difícil, como toda profissão, é preciso sorte e muita dedicação. A partir daí vai sendo criada uma relação de amigos. Não basta só ser formado. Tem que mostrar a que veio. Não interessa a formação, tem que ter vocação, tem que fazer. Minha geração de atores foi muito difícil, não tínhamos apoio de ninguém. Não significa que todo famoso tenha talento. É preciso estudar, é preciso saber o que faz. Não adianta só ser uma pessoa bonita, hoje as opções de beleza são muitas”, enfatiza.

 

Recentemente, o ator gravou um filme com a célebre Glória Pires e está em fase final de gravação, ao lado da colega de profissão Bruna Lombardi, com participação na série “A vida secreta dos casais”, exibida pela HBO. “Trabalhar com a Glória é maravilhoso, assim como com a Bruna. São seres humanos maravilhosos”, disse o artista global.

Para 2019, muita lenha será queimada e, para alegria dos fãs, muito trabalho à vista. Em maio do próximo ano, o ator estará presente no longa baseado nas histórias de Allan Kardec, ainda com nome incerto.

Genézio também já foi escalado para fazer parte do elenco de “Dias Felizes”, próxima novela das 21h, de autoriade Walcyr Carrasco, na Rede Globo de Televisão.

São inúmeras atividades e vários títulos ao longo dos 50 anos de carreira. E os trabalhos não param…

A todo carisma e receptividade recebidos, a equipe de O Defensor agradece a oportunidade concedida e o privilégio de conhecer e poder difundir a história deste ator global e taquaritinguense de talento ímpar.

Carreira – Genézio de Barros começou no cinema, em 1981, participando do filme “Eles Não Usam Black Tie”. Em 98, fez “Ação Entre Amigos”. Em 2000, apareceu em “Quase Nada”. Em 2003 fez “Viva Voz”. Em 2004 “Onde Anda Você” e em 2005 “Achados e Perdidos”.

Na televisão, o ator começou na Rede Globo, em 1996, participando da novela “O Rei do Gado”. Em 1998, na Rede Band, fez “Meu Pé de Laranja Lima”. Em 2001, fez “Amor e Ódio”, novamente na Globo. Em 2005, participou da minissérie “Mad Maria” e da novela “BangBang”. Em 2006, as participações foram no seriado “Carga Pesada” e na novela “O Profeta”. Em 2007, estevena novela “Sete Pecados”. Em 2008 ficou super conhecido como o “Vô Pedro” na novela “A Favorita”. Em 2009, “Paraíso”. Já em 2010, esteve nas novelas “Tempos Modernos” e “Malhação”. Em 2011, outra novela, “Cordel Encantado”. Em 2012, o remake de “Gabriela”. E em 2013, “Amor à Vida”.

No cinema, Genésio de Barros destacou-se no filme “Ação Entre amigos”, recebendo o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Festival Internacional de Chicago, nos Estados Unidos, em2000. Pelo filme “Quase Nada”, ganhou o prêmio de Melhor Ator, no Festival de Cinema de Natal, em 2002.