quarta-feira, 24 junho, 2026

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Nossa Palavra – O poder do CVV e de cada cidadão no combate ao suicídio

Setembro Amarelo mostra que salvar vidas é um dever coletivo, não apenas institucional

No Brasil, uma ligação gratuita pode ser a diferença entre a vida e a morte. O 188, número do Centro de Valorização da Vida (CVV), é muito mais que um serviço de escuta: é um abraço invisível oferecido por voluntários anônimos que dedicam tempo, sensibilidade e compaixão para acolher quem, muitas vezes, não encontra espaço nem dentro da própria casa. Contudo, a existência dessa rede não isenta a sociedade de sua responsabilidade. Pelo contrário: o Setembro Amarelo nos lembra que a prevenção do suicídio não se sustenta apenas em campanhas, mas sobretudo em ações cotidianas de cuidado humano.

É preciso compreender que o voluntariado é um pilar de resistência contra a indiferença. O CVV não oferece respostas prontas, tampouco soluções mágicas. Ele oferece algo ainda mais valioso: escuta ativa, empatia e respeito, três elementos que o Estado, a política e até as instituições de saúde têm falhado em entregar. Mas não basta terceirizar ao CVV ou a ONGs o que deveria ser um pacto coletivo. Cada cidadão tem a obrigação moral de se tornar um elo de acolhimento, quebrando o ciclo do silêncio e do estigma que transforma o suicídio em uma epidemia silenciosa.

A frieza dos números denuncia a urgência: segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no planeta. No Brasil, são cerca de 14 mil vidas perdidas anualmente, ou seja, uma morte a cada 40 minutos. Não se trata apenas de estatística. São histórias interrompidas, sonhos desfeitos, famílias destruídas. O suicídio não é escolha, mas consequência de dores invisíveis que poderiam ser evitadas se houvesse mais atenção, solidariedade e políticas públicas eficazes.

O voluntariado do CVV prova que não é necessário ser médico, psicólogo ou especialista para salvar uma vida. É necessário estar disposto a ouvir sem julgamento, a dar tempo ao outro, a enxergar além da superfície. Essa é a lição mais poderosa que o Setembro Amarelo nos oferece: a vida se defende com humanidade. E humanidade não se compra, não se decreta, não se impõe. Ela se constrói em pequenas atitudes — perguntar como alguém está, oferecer companhia, respeitar o silêncio, estender a mão.

Mas não podemos ser ingênuos. O voluntariado é essencial, mas não pode ser visto como um substituto para políticas públicas robustas de saúde mental. Enquanto voluntários do CVV trabalham incansavelmente, muitos municípios ainda não dispõem sequer de um CAPS estruturado, de profissionais suficientes no SUS ou de estratégias eficazes nas escolas e locais de trabalho. Isso é negligência. Isso é descaso. É preciso cobrar governantes para que a saúde mental seja tratada como prioridade orçamentária e não como promessa de campanha.

Ainda assim, se há algo que nos inspira em meio a tantas falhas, é a prova viva de que o ser humano, em sua simplicidade, pode ser a diferença entre a vida e a morte de outro ser humano. O CVV é exemplo disso: milhares de voluntários espalhados pelo país dedicando horas semanais a ouvir quem mais precisa. Um esforço que não rende aplausos fáceis, mas que gera impacto profundo, silencioso e vital.

O Setembro Amarelo, portanto, não deve ser encarado apenas como campanha de um mês, mas como convocação permanente à cidadania solidária. Não podemos esperar que apenas instituições façam esse trabalho. A responsabilidade é nossa: de cada família, cada escola, cada empresa, cada vizinhança. Afinal, um gesto de empatia pode não mudar o mundo inteiro, mas pode mudar o mundo de alguém que já não vê saída.

Neste 25 de setembro, a mensagem é clara: o combate ao suicídio é coletivo. O CVV é uma ferramenta essencial, mas o voluntariado deve ser multiplicado na vida cotidiana, em cada conversa, em cada olhar, em cada atitude que valorize a vida. Porque salvar vidas não é apenas dever do Estado ou de instituições especializadas — é dever de todos nós.