quinta-feira, 9 julho, 2026

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Nossa Palavra: A memória Viva do 9 de Julho – O sangue de Taquaritinga no solo paulista

Celebrar o dia 9 de julho é resgatar um dos capítulos mais profundos do orgulho paulista. A data marca o início da Revolução Constitucionalista de 1932, um movimento que uniu o estado na luta pela democracia e por uma nova Constituição para o país. No entanto, para além dos livros de história geral, esse feriado carrega o DNA de Taquaritinga. Nossa cidade não assistiu à história de longe; ela marchou de peito aberto em direção às linhas de frente.

Naquele ano de forte mobilização, cerca de 300 jovens taquaritinguenses deixaram o conforto de seus lares e se alistaram voluntariamente para defender a bandeira de São Paulo. Movidos por um ideal coletivo de liberdade, eles sabiam dos riscos, mas não recuaram. Infelizmente, três desses bravos filhos da nossa terra não retornaram com vida das trincheiras, transformando-se em símbolos eternos de sacrifício e bravura.

Os heróis que sucumbiram no front

A dor da perda marcou profundamente as famílias de Taquaritinga. Conhecer a história e a identidade desses jovens é um dever de memória para as futuras gerações. Eles doaram suas juventudes por um propósito maior.

O mais jovem deles foi Dilermando Dias dos Santos, nascido em 15 de outubro de 1916. Filho de José Corrêa dos Santos e Izaura Dias dos Santos, o ex-aluno do Ginásio São Luiz alistou-se no Batalhão Paes Leme. Com apenas 16 anos, uma idade em que a vida recém começava, Dilermando foi vítima de estilhaços de granada e faleceu no dia 1.º de setembro de 1932.

Pouco depois, em 27 de setembro, o município perdia Octavio dos Santos Calheiros, de 19 anos. Nascido em 12 de abril de 1913, filho de Carlos Calheiros e Lina dos Santos Calheiros, ele serviu no Batalhão da Força Pública e tombou sob uma violenta saraivada de balas defendendo as posições paulistas.

O soldado 22 e o batalhão universitário

A história de Clineu Braga de Magalhães guarda uma dramaticidade única. Filho de Renato Alves de Magalhães, nascido em 22 de agosto de 1911, ele era um jovem de 21 anos que cursava o terceiro ano de engenharia civil no Colégio Mackenzie, na capital. De lá, partiu com outros estudantes para compor o icônico Batalhão Universitário Paulista, reunido no Batalhão 14 de Julho.

Registrado como o soldado número 22, Clineu teve sua trajetória interrompida por um tiro no coração em 18 de setembro. O grupo de estudantes acabou quase totalmente aniquilado após ser cercado pelas tropas federais. O corpo do jovem taquaritinguense foi enterrado inicialmente em Capão Bonito e, posteriormente, transladado para o Cemitério São Paulo. Seus passos e sua coragem ficaram eternizados nas páginas do histórico livro “Cruzes Paulistas”, editado em 1936.

A conexão com a nossa praça central

“Os monumentos e os nomes de nossas ruas não são meras escolhas geográficas, mas sim cicatrizes visíveis de uma história escrita com coragem.”

Outro personagem essencial nessa epopeia foi o advogado taquaritinguense Dr. Horácio Ramalho (1906-1987). Integrante do Batalhão Arquidiocesano, ele combateu voluntariamente na Serra da Mantiqueira, guarnecendo a estratégica estrada entre São Luís do Paraitinga e Ubatuba sob o comando do coronel Euclides Figueiredo. Seu objetivo, alinhado ao de todo o estado, era claro: a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Carta Magna.

Essa luta moldou o próprio desenho urbano de Taquaritinga. Em 1935, a praça central do município — que em um passado ainda mais distante abrigou o primeiro cemitério da cidade — foi batizada como “9 de Julho” em reverência direta ao movimento. Décadas mais tarde, com o falecimento do ilustre ex-combatente, o espaço passou a se chamar Praça Dr. Horácio Ramalho, unindo de forma definitiva a data e o homem que a vivenciou.

O sentido do 9 de julho hoje

Em resumo, o feriado de 9 de julho não pode ser reduzido a um dia comum de descanso no calendário. Para os taquaritinguenses, ele evoca o heroísmo de Clineu, Dilermando, Octavio, Horácio e de outros quase 300 cidadãos anônimos que disseram “sim” quando São Paulo os convocou.

Neste ano de 2026, ao passarmos pela praça central da nossa cidade, que possamos olhar para o nosso chão com o respeito que ele merece. Taquaritinga deu o sangue pela liberdade do Brasil, e a memória desses jovens heróis continuará viva enquanto lembrarmos de seus nomes e de suas causas.

(Nota da redação: Este editorial foi construído com base nas valiosas pesquisas históricas preservadas e divulgadas pelo jornalista Nilton Morselli.)