Explosões de fogos, música alta e comidas típicas representam ameaças à saúde física e emocional de cães, gatos e outros animais domésticos durante o período junino
As tradicionais festas juninas, com seus arraiais iluminados, comidas típicas e fogueiras, movimentam o calendário cultural em todo o Brasil. No entanto, enquanto humanos celebram, os animais domésticos enfrentam um dos períodos mais estressantes do ano. A combinação de fogos de artifício, sons altos e alimentos inadequados pode gerar traumas, intoxicações e até fugas em cães, gatos e outros pets.
Segundo dados do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), o número de atendimentos emergenciais relacionados ao estresse e ingestão de substâncias nocivas por animais domésticos aumenta consideravelmente em junho. A Organização Mundial da Saúde Animal (OIE) também reconhece os fogos de artifício como fontes relevantes de estresse para os pets, especialmente aqueles com hipersensibilidade auditiva.
Estímulos sonoros: um perigo invisível
A audição dos cães é cerca de quatro vezes mais sensível que a dos humanos. Sons superiores a 80 decibéis — equivalentes a rojões de médio porte — já são suficientes para causar desconforto, taquicardia, tremores, salivação excessiva e tentativas de fuga. Em casos extremos, o susto provocado por explosões sonoras pode desencadear crises convulsivas em animais com predisposição neurológica ou até mesmo levá-los à morte por parada cardíaca.
Gatos, embora mais silenciosos, também sofrem com o barulho, apresentando comportamento arredio, agressividade, ou isolamento repentino. Aves, por sua vez, podem entrar em estado de pânico, bater contra as gaiolas ou sofrer queda de penas por estresse agudo. Os efeitos são amplificados em animais idosos, doentes ou com histórico de trauma.
Alimentos juninos: coloridos, cheirosos e perigosos
Outro risco silencioso está nas comidas típicas das festas. Muitos alimentos que agradam aos humanos são altamente tóxicos para os animais. Milho cozido com sal, amendoim, paçoca, pipoca com manteiga, doces à base de chocolate ou xilitol, além de embutidos e carnes gordurosas, representam uma ameaça real à saúde gastrointestinal dos pets.
A ingestão desses alimentos pode provocar desde quadros leves, como vômitos e diarreia, até condições graves, como pancreatite, obstrução intestinal e intoxicação hepática. Mesmo o consumo acidental de pequenas porções pode ser perigoso, principalmente em cães de pequeno porte.
Fugas e acidentes: números preocupantes
De acordo com estatísticas compiladas por centros de controle de zoonoses e grupos de proteção animal, o índice de animais perdidos durante festas com fogos aumenta em até 30% entre os meses de junho e julho. O instinto de fuga diante do medo pode levá-los a se machucarem ao tentar escapar por janelas, portões ou muros, e a se perderem nas ruas, muitas vezes sem identificação adequada.
A ausência de microchip ou de coleiras com nome e telefone do tutor compromete significativamente as chances de reencontro. É justamente nessa época que se evidenciam os benefícios de ferramentas como o SinPatinhas, sistema nacional de registro de animais com QR Code, recentemente implementado pelo Governo Federal.
Prevenção e cuidado: a chave para festas seguras para todos
Garantir a segurança dos pets durante as celebrações juninas exige planejamento e informação. Manter os animais em locais fechados, longe de ruídos externos, com som ambiente tranquilo e brinquedos de distração, ajuda a reduzir o impacto do barulho. Para pets muito sensíveis, o uso de fones auriculares adaptados ou de roupas que aplicam pressão relaxante pode ser considerado.
No campo alimentar, a orientação é clara: não oferecer nenhum tipo de alimento humano aos animais. Rações específicas, petiscos naturais e supervisão rigorosa são as melhores formas de evitar emergências.
Além disso, a conscientização da população sobre os danos causados pelos fogos sonoros é fundamental. Em diversos estados e municípios, já tramitam leis que restringem ou proíbem fogos com estampido, privilegiando versões silenciosas como alternativa segura e inclusiva.
As festas juninas fazem parte do patrimônio cultural brasileiro, mas seu impacto sobre os animais domésticos ainda é pouco discutido. Reconhecer os riscos e agir preventivamente é um exercício de empatia e responsabilidade.
O bem-estar animal deve ser parte integrante das celebrações. Com atitudes simples e informadas, é possível aproveitar o período festivo sem comprometer a saúde e a segurança dos nossos companheiros de quatro patas — que, mesmo em silêncio, sentem, sofrem e confiam em nós para protegê-los.



