quinta-feira, 30 abril, 2026

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Crônica: Um Nobel à Walking Dead

Por: Sérgio A. Sant’Anna*

O próximo escritor a ganhar um Nobel de Literatura será aquele que diante da necessidade humana de não mais ler, conseguir passar mensagens através de algo que leve o ser humano a não praticar a leitura.

Diriam os donos do senso comum que foram os meios tecnológicos que levaram os Homens a não buscar mais a leitura; outros trarão a falta de paradigma para o jogo das ideias; àqueles que terceirizaram à educação dos seus pupilos e admitem ser a escola a grande culpada. Na verdade os culpados estão aí, somam-se, porém a inaptidão, as facilidades, a zona de conforto, a mesmice, a falta de criatividade, levaram o ser humano ao emburrecimento. Definitivamente não há progresso! Os anos apenas passaram e estamos retrocedendo. Nas ruas há ogros, seres capazes de verificarem o mal acontecendo ao seu semelhante e continuarem a andar, sem pensar, chegando à tragédia de ajudar a acabar com aquele que anseia por ajuda; as ruas são apenas uma metáfora, pois a banalidade, principalmente da violência encontra caminho naqueles que não se importam mais com ela.

Os nossos veículos de comunicação possuem como manchetes a violência. Quanto mais sangrenta for a notícia mais leitores ela ganhará. E não são aqueles devoradores de frases, críticos, capazes de digerirem aquilo que leram, mas aqueles que transmitem a reportagem à sua moda, à sua maneira… Sei muito bem que durante séculos a oralidade foi nosso alicerce no processo de construção do conhecimento, no entanto hoje isso não cabe mais. Que gosto mais nojento! Ver pessoas sendo assassinadas e não se manifestarem sejam estes bandidos, prostitutas, moradores de rua, trabalhadores etc. A morte é algo trágico feito eufemismo pelas crenças religiosas para abrandar ao sofrimento. Matar, pregar a vingança através da violência é sim ser conivente com uma literatura real, que acontece cotidianamente e que por uma política de falecimento dos nossos Poderes tornou-se o pão-nosso-de-cada-dia.

Mas longe disso, não podemos nos acostumar. Quem se acostuma dorme nas garras do esquecimento, carrega o gene da ignorância, propaga a ingratidão, não lamenta a perda do próximo, não sabe o que é lacrimejar… Os olhos que se umedecem com uma cena triste, dotada de humanidade foram tolhidos pelo esforço humano de que o ser humano não deve chorar, pois as lágrimas são para os fracos, pobres de espírito, que transmite fragilidade, incompetência. Do fúnebre velório aos mais animados cortejos sepulcrais (que mais se parecem com uma festa) a vida acumulou apenas ares de que mais nada vale…

Se não se preocupa com o seu semelhante como queremos vê-los preocupados com a situação do seu País, do Mundo? Estes seres humanos que aí estão (são poucos que ainda são humanos) não dão atenção ao macro, são inertes, a mente se assemelha a massa cinzenta dos nossos antigos dinossauros. São incapazes de buscarem soluções, encontrarem o conhecimento, doar informações… e nas agruras da vida são incapazes de abraçarem, de beijarem, de apertarem com humanidade a mão de seu colega, seu semelhante. O carinho, o afeto, a generosidade, desapareceu como o poeta Gentileza. Nem mais nos muros estes são capazes de permanecerem, pois os ignóbeis lançam-se da pichação como um manifesto e escurecem a leitura dos muitos que poderiam ler e não leem.

Numa leitura eu acredito destes que lançam zumbis como os novos heróis das letras, estamos voltados a este Walking Dead, ou seja, a única diferença é que estamos maquilados ou maquiados como almejam aqueles que não leem…

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.