quinta-feira, 30 abril, 2026

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Crônica: Sobre nomes

Por: Gustavo Antonio Ascencio

Tenho muita dificuldade com nomes. Dar nomes a algo é de uma responsabilidade tremenda, trata-se em alguma medida de classificar o que foi nomeado, reconhecer sua instância e função no mundo, principalmente no que se refere a títulos. Outra coisa que considero importante é o nome não vir de quem o receberá, isso não faz o menor sentido. Chamo-me Gustavo porque meus pais assim decidiram, parece-me justo. Se tivesse que escolher meu próprio nome, provavelmente não possuiria um. Reconhecer-me como algo é um problema, talvez de autoconfiança, ao passo que apenas torno-me verdadeiramente algo quando sou presenteado por tal mérito. Por exemplo, ser professor.

Durante a faculdade, tinha colegas autointitulados professores, nunca haviam pisado numa sala de aula propriamente dita ou preparado e ministrado uma aula inteiramente do começo ao fim; porém já se nomeavam assim. A mim, faltava segurança para estufar o peito e dizer o mesmo: “nós, professores, precisamos…”, “eu, enquanto professor, penso que…”, não saía. Treinava em frente ao espelho, imaginava-me com o canetão na mão e alunos à minha frente — nada. Quem me deu este epíteto foram meus alunos.

“Oh sor”, “Fessor, vem vá”, “Professor Gustavo, tenho uma dúvida” e pronto, tornara-me. Simples assim. Hoje em dia, mesmo distante das salas, trabalhando em repartição, não renego esse título, pelo contrário, entendo que não deixo de ser professor, gosto e prefiro quando meus colegas de serviço público me chamam por ele.

O mesmo ocorre para o “ser escritor”. Na concepção semântica mais ampla, escritor é quem escreve. Ou seja, se você já escreveu seu nome numa folha de papel, já possui algo em comum com Camões — ambos escritores. No entanto, no que se refere à noção de ser autor de uma obra, concepção que também é tragada por esse signo linguístico, o buraco é mais embaixo. Sempre escrevi muito em minha vida, desde os treze praticamente componho minhas obras. Fui desde então um escritor? Não sei. Fato é que, de uns tempos para cá, tento repetir o mesmo processo supracitado com este título almejado. Esforço-me para que vejam este valor em mim. Começar a escrever está coluna é um exemplo disso. Outro: em breve lançarei um livro. Não há uma data ainda, mas já assinei o contrato e estou trabalhando em cima do original. Nesse sentido, ouço/leio de meus colegas da editora: “O escritor Gustavo”, “Gustavo é um escritor de Taquaritinga”, e passo a sentir-me um.

Talvez falte-me confiança, como já disse. Nem sempre esperar pela validação externa é um bom caminho, seja porque ela pode nunca vir, seja porque este olhar alheio pode enxergar em você algo que você próprio discorde, afinal não temos controle algum sobre isso. Portanto, entendo que há problemas em confiar no outro para que este finalize esse importante rito de passagem de nossas vidas: o tornar-se algo. Todavia, ao mesmo tempo, sempre buscamos o reconhecimento, por mais que se diga o contrário.

Você mesmo, quando lê esta crônica, me torna um cronista. Então devo ser isso também, um cronista.

*Gustavo Antonio Ascencio é escritor e professor formado em letras na USP.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.