Proteger crianças e adolescentes no ambiente digital é a redação que o Brasil precisa escrever
Por: Sérgio Sant’Anna*
Sempre que me perguntam qual tema poderia surpreender no ENEM de 2026, respondo sem hesitar: a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Não porque seja uma pauta da moda, mas porque ela reúne praticamente tudo o que uma grande redação exige: cidadania, tecnologia, ética, legislação, psicologia, educação e responsabilidade coletiva. Depois de quase três décadas ensinando redação, aprendi que os melhores temas são aqueles que revelam quem somos como sociedade. E poucos espelhos são tão incômodos quanto a tela de um celular entregue a uma criança.
Vivemos uma contradição curiosa. Nunca tivemos tantas ferramentas para conectar pessoas e produzir conhecimento, mas também nunca foi tão fácil expor crianças a riscos invisíveis. Cyberbullying, aliciamento, pornografia, desafios perigosos, golpes financeiros, coleta abusiva de dados e vício em plataformas deixaram de ser exceções para compor o cotidiano digital. O problema não é a tecnologia em si; é a ausência de uma cultura de proteção que acompanhe sua velocidade.
É impossível refletir sobre isso sem lembrar de Marshall McLuhan, que dizia que “o meio é a mensagem”. A frase, escrita décadas antes das redes sociais, tornou-se assustadoramente atual. As plataformas não apenas transmitem conteúdo: elas moldam comportamentos, emoções e formas de interação. Quando um algoritmo recompensa a permanência infinita diante da tela, ele deixa de ser uma ferramenta neutra para tornar-se um agente que influencia a formação das novas gerações.
Outro filósofo indispensável é Michel Foucault, cuja ideia do panoptismo ajuda a compreender o ambiente digital contemporâneo. Antes, o indivíduo era vigiado por uma torre; hoje, somos observados por sistemas invisíveis capazes de registrar cada clique, curtida e permanência na tela. O mais preocupante é que crianças crescem naturalizando essa vigilância permanente, muitas vezes sem compreender que seus dados possuem valor econômico e podem ser utilizados para influenciar comportamentos.
Quando penso em repertório cinematográfico para esse tema, imediatamente lembro de O Dilema das Redes (The Social Dilemma). O documentário expõe como grandes empresas de tecnologia utilizam mecanismos psicológicos para capturar atenção e prolongar o tempo de uso. Não se trata apenas de entretenimento; trata-se de uma arquitetura construída para competir pela atenção humana. Para um vestibulando, essa obra oferece um argumento poderoso: o problema ultrapassa escolhas individuais e envolve modelos de negócios baseados na economia da atenção.
Outro filme igualmente pertinente é Searching (Buscando…), no qual um pai reconstrói o desaparecimento da filha por meio de seus rastros digitais. A narrativa demonstra que a vida virtual não é paralela à vida real: ambas estão profundamente conectadas. Essa percepção ajuda o candidato a defender que educação digital não significa afastar jovens da internet, mas prepará-los para habitá-la com segurança.
Na literatura, gosto de aproximar o tema de 1984, de George Orwell. Embora o romance trate do controle estatal, ele oferece uma metáfora valiosa para discutir monitoramento, privacidade e manipulação informacional. Curiosamente, o “Grande Irmão” contemporâneo não possui apenas rosto político; muitas vezes aparece disfarçado de aplicativo gratuito que conhece mais sobre nossos filhos do que nós mesmos.
Também encontro ecos importantes em A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord. O autor argumentava que as relações humanas passaram a ser mediadas por imagens. Basta observar adolescentes medindo autoestima por curtidas para perceber que Debord parecia escrever sobre o TikTok décadas antes de sua existência. O espetáculo tornou-se portátil, personalizado e incessante.
Do ponto de vista psicológico, Zygmunt Bauman oferece outra chave interpretativa. Sua ideia de “modernidade líquida” explica relações frágeis e vínculos descartáveis. Nas redes, amizades podem surgir e desaparecer em segundos; discursos de ódio viralizam com facilidade; cancelamentos tornam-se espetáculos públicos. Crianças, ainda em formação emocional, enfrentam essas dinâmicas sem possuir plenamente os recursos para processá-las.
Mas um bom repertório nunca vive apenas de teoria. A legislação brasileira oferece fundamentos sólidos. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227, estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar proteção integral às crianças e aos adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) consolidou esse princípio muito antes da explosão das redes sociais. Mais recentemente, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) reforçou cuidados específicos com dados de menores, reconhecendo que privacidade também é um direito da infância.
Em 2025, o Brasil deu um passo importante com a aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde 2026. A legislação passou a exigir mecanismos confiáveis de verificação de idade, fortalecimento da supervisão parental, restrições à publicidade direcionada ao público infantil e medidas para tornar plataformas mais seguras para crianças e adolescentes. Essa atualização mostra que o ordenamento jurídico brasileiro começa a reconhecer que proteger crianças no século XXI exige olhar também para os ambientes virtuais.
A própria política pública passou a enfatizar um conceito que considero fundamental para qualquer redação nota mil: responsabilidade compartilhada. O Estado deve fiscalizar; as plataformas precisam incorporar segurança desde o desenvolvimento de seus produtos; escolas devem promover educação midiática; famílias necessitam dialogar continuamente com crianças e adolescentes. O Decreto que regulamenta a política nacional sobre o tema deixa claro que educação digital e pensamento crítico são elementos centrais dessa proteção.
A música também oferece repertório surpreendente. Sempre gosto de lembrar “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd. Embora critique um modelo escolar opressor, sua mensagem pode ser reinterpretada: educar não significa controlar mecanicamente, mas desenvolver autonomia crítica. Da mesma forma, “Comida”, dos Titãs, lembra que “a gente não quer só comida”. Eu adaptaria a reflexão para este tema: nossos jovens também não precisam apenas de conexão; precisam de pertencimento, afeto e orientação. Nenhum algoritmo substitui uma conversa verdadeira.
Há ainda uma referência brasileira poderosa: Paulo Freire. Quando defendia a educação libertadora, ele não imaginava inteligência artificial, influenciadores digitais ou algoritmos de recomendação. Ainda assim, sua proposta permanece atualíssima. Freire ensinava que educar é formar sujeitos capazes de ler o mundo antes de apenas ler palavras. Hoje eu diria aos meus alunos: é preciso aprender a ler também as telas.
Se esse tema realmente aparecer no ENEM de 2026, acredito que muitos candidatos cairão numa armadilha comum: pedir simplesmente a proibição das redes sociais. Eu evitaria esse caminho. Experiências internacionais mostram que proibições isoladas tendem a ser facilmente burladas, enquanto especialistas defendem ambientes digitais mais seguros, recursos adequados à idade e educação digital consistente.
Em uma redação nota mil, soluções simplistas raramente convencem.
Como professor de redação, sempre digo que repertório não é coleção de citações; é capacidade de estabelecer conexões inteligentes. Nesse tema, o candidato pode unir Foucault ao monitoramento digital, Orwell à privacidade, Bauman às relações líquidas, McLuhan aos algoritmos, Paulo Freire à educação midiática, o ECA à proteção integral, a LGPD à privacidade infantil e O Dilema das Redes ao funcionamento das plataformas. Quando essas referências dialogam entre si, a argumentação ganha profundidade.
No fim das contas, continuo acreditando que a maior disputa do nosso tempo não acontece apenas nas urnas, nos tribunais ou nas redes sociais. Ela acontece na formação das próximas gerações. Se deixarmos que algoritmos eduquem sozinhos nossas crianças, estaremos terceirizando o futuro. E isso, sinceramente, seria a pior redação que o Brasil poderia escrever.




