Por: Rodrigo Segantini*
A instalação do AME – Ambulatório Médico de Especialidades em nossa cidade, articulada pelo então prefeito Paulinho Delgado, foi celebrada como uma das maiores vitórias da política de saúde local. Um centro moderno, prometendo resolutividade, representava não apenas um avanço técnico, mas um gesto concreto de cuidado com a população. Mais do que um novo equipamento, o AME deveria somar forças com a rede já existente: UBSs atuantes, a UPA, a Santa Casa e o Hospital de Olhos — este, referência regional em oftalmologia. A proposta era de integração, com cada instituição atuando com excelência dentro de sua vocação e respeitando os limites técnicos e a expertise de cada unidade.
Mas eis que o AME realizou um mutirão de cirurgias de catarata que terminou em tragédia. Doze pacientes saíram de lá com perda de visão — parcial ou total. Inaceitável para qualquer serviço de saúde. Por isso, houve a intervenção do governo estadual, que mantém sua operação, e do Ministério Público, para apurar os fatos e cobrar responsabilidades.
No entanto, a despeito da solidariedade às vítimas do absurdo havido — e considerando que cabe à Promotoria de Justiça a apuração dos fatos para que os culpados sejam punidos e arquem com as consequências — algumas perguntas insistem em ecoar: por que o AME realizou procedimentos oftalmológicos se temos na cidade um hospital especializado nessa área, que é referência na região, devidamente equipado e com tradição no atendimento à nossa população? Outra pergunta, tão grave quanto: por que, numa cidade com médicos competentes — muitos deles filhos da terra e outros que escolheram Taquaritinga como lar — entregaram a gestão da unidade a uma organização forasteira, que agora nem está por perto para ouvir o clamor de nossa gente?
Essa situação colocou o AME em uma posição vexatória. Ainda mais para um centro que leva o nome de Dr. Fued Simão, o mitológico médico que cuidou de gerações de taquaritinguenses, com mãos firmes, ouvidos atentos e coração generoso. Um verdadeiro pajé de nossa tribo chamada Taquaritinga, seu nome sempre foi sinônimo de cuidado, responsabilidade e amor aos enfermos. Ver esse nome estampado na fachada de uma unidade marcada por suspeitas de erros tão grotescos — como uso incorreto de substâncias, falhas na esterilização, ausência de protocolos e procedimentos duvidosos — fere a memória de alguém que jamais toleraria esse tipo de descuido com a vida humana. Não é apenas um equívoco, mas um desrespeito histórico.
O AME é estadual, é verdade. Mas está em solo taquaritinguense. E, por isso mesmo, espera-se que o prefeito, Dr. Fúlvio, que também é médico e conhece a dor do paciente, use sua autoridade de alcaide para agir, não como espectador ou comentarista, mas como defensor de sua gente. Um prefeito médico deve, mais do que ninguém, entender o impacto emocional, físico e social de uma cirurgia que dá errado. Cabe a ele, com sua formação e sua função, exigir que o Governo do Estado faça o que prometeu e corrija o que falhou. Pois não basta cortar fita e posar para fotos na inauguração — é na crise que se mede a estatura de um líder.
A população precisa de respostas, de providências reais e de garantia de que isso jamais se repetirá. O AME foi uma conquista. Mas conquistas exigem zelo, fiscalização e envolvimento direto do poder público local. E, acima de tudo, exigem compromisso com quem mais precisa: o povo. Que o nome de Dr. Fued inspire responsabilidade — e não seja apenas uma homenagem vazia. Que sua história continue sendo respeitada, não apenas com placas e cerimônias, mas com ações concretas de dignidade e respeito à vida humana. Por fim, às vítimas, nossas orações e solidariedade; ao Ministério Público, que faça a Justiça que as vítimas merecem.



