sexta-feira, 10 julho, 2026

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Artigo: O dia em que a camisa pesou mais que os ombros e o adeus à Patria de chuteiras

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há derrotas que terminam quando o árbitro apita. Outras permanecem ecoando nas ruas vazias, nas bandeiras que deixam de tremular e no silêncio das televisões desligadas antes mesmo do apito final. A derrota do Brasil para a Noruega não eliminou apenas uma seleção da Copa do Mundo de 2026; eliminou, por algumas horas, aquele velho costume brasileiro de acreditar que o impossível sempre vestia amarelo.

Nelson Rodrigues dizia que “a seleção é a pátria de chuteiras”. Naquele domingo, porém, parecia que a pátria havia esquecido as próprias chuteiras no vestiário. Faltou entrega, faltou coragem, faltou aquela insolência tão brasileira que transformava jogadores comuns em heróis improváveis. Em campo, havia atletas; fora dele, milhões de torcedores procurando reconhecer a seleção que aprenderam a amar.

Talvez o problema não tenha sido apenas técnico. O futebol sempre foi um espelho da sociedade, e os espelhos raramente mentem. A desorganização, a ausência de liderança e a aparente falta de compromisso lembravam muito outros setores do país, onde o improviso frequentemente substitui o planejamento e o talento insiste em caminhar desacompanhado da disciplina.

O filósofo grego Aristóteles afirmava que “a excelência é um hábito”. Não nasce pronta, nem aparece apenas nos grandes momentos. Ela é construída diariamente. Durante décadas, o Brasil acostumou-se a acreditar que bastava vestir a camisa canarinho para que o talento resolvesse tudo. Mas o futebol moderno cobra organização antes da genialidade.

A Noruega jogou como quem conhecia o próprio destino. O Brasil, ao contrário, parecia um turista perdido dentro da própria história. Enquanto os europeus ocupavam espaços, pressionavam e dividiam cada bola como se fosse a última, os brasileiros pareciam esperar que o talento individual resolvesse uma partida que exigia espírito coletivo.

Então vieram as lembranças. Vieram as imagens de 1958, quando um garoto de dezessete anos chamado Pelé encantou o mundo. Vieram 1962, 1970, 1994 e 2002. Cinco estrelas costuradas na camisa não apenas por títulos, mas por gerações que transformaram o futebol em arte. Cada estrela parecia observar silenciosamente os jogadores daquela tarde, perguntando se compreendiam o peso que carregavam sobre o peito.

É impossível pensar na Seleção sem ouvir, ainda que mentalmente, os versos de “Pra Frente Brasil”: “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração”. A música atravessou décadas como um hino popular de esperança. Naquele dia, contudo, os milhões continuavam em ação apenas para desligar a televisão, recolher as bandeiras e guardar, mais uma vez, a esperança para quatro anos depois.

O escritor Carlos Drummond de Andrade escreveu que “a dor é inevitável; o sofrimento, opcional” — frase frequentemente atribuída a outros autores, mas cuja reflexão dialoga com sua obra marcada pela condição humana. O torcedor brasileiro conhece bem essa diferença. A dor da derrota é inevitável. O sofrimento nasce da sensação de que se perdeu sem lutar tudo aquilo que se poderia oferecer.

Também ecoava a voz de Machado de Assis, mestre em revelar as contradições humanas. Talvez dissesse que o brasileiro ama tanto o futebol porque nele encontra, condensadas em noventa minutos, todas as virtudes e todos os defeitos nacionais: a criatividade e a desordem, a esperança e a frustração, a genialidade e a negligência.

Enquanto isso, em algum bairro do Brasil, uma criança recolhia a bola do quintal sem vontade de continuar a partida. Um vendedor ambulante dobrava as bandeiras que não venderia mais. O churrasco esfriava sobre a mesa. Os rojões permaneciam intactos nas caixas. Até os cachorros da vizinhança pareciam estranhar um silêncio que normalmente só chega depois da vitória.

O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda observou que a identidade brasileira é feita de afetos, contradições e relações pessoais. Talvez por isso a Seleção nunca tenha sido apenas um time. Ela representa um raro momento em que milhões de desconhecidos torcem pela mesma causa, vestem a mesma cor e acreditam no mesmo sonho.

Mas sonhos exigem responsabilidade. A camisa amarela não deveria servir apenas como uniforme; deveria lembrar um compromisso com aqueles que acordam cedo, enfrentam ônibus lotados, trabalham o mês inteiro e, ainda assim, encontram noventa minutos para acreditar que o futebol pode devolver alguma alegria. A brasilidade nunca esteve apenas no drible. Sempre esteve na entrega.

Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro possui o “complexo de vira-lata”. Talvez hoje o problema seja justamente o contrário. Em alguns momentos, confundimos tradição com garantia de vitória. Esquecemos que ninguém vence apenas porque venceu ontem. As cinco estrelas iluminam o passado; não jogam o presente.

No fim da noite, as bandeiras continuavam nas sacadas, agora imóveis, como se também estivessem de luto. A Copa seguiria sem o Brasil, como tantas outras seguiram depois de 1950, 1982, 1998, 2006, 2014, 2018 e 2022. O futebol, impiedoso, não espera ninguém. Apenas ensina, repetidamente, que glória e fracasso caminham lado a lado.

Talvez a maior vitória que reste ao Brasil seja reaprender aquilo que um dia o tornou admirado pelo mundo: transformar talento em trabalho, improviso em organização, vaidade em espírito coletivo e camisa em responsabilidade. Porque títulos podem ser perdidos. O que jamais deveria ser perdido é a convicção de que representar uma nação exige mais do que jogar futebol: exige honrar a própria pátria de chuteiras.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.