sábado, 20 junho, 2026

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Artigo: E se fôssemos tirados da tomada?

Por: Rodrigo Segantini*

Na semana passada, Portugal e Espanha experimentaram uma amostra do colapso que nos ronda como um leão que brande enquanto cerca sua presa. Em razão de um evento ainda sem explicação convincente, foi como se a tomada desses dois países tivesse sido arrancada da parede. Bastou uma falha elétrica para que a moderna sociedade digital, orgulhosa da sua tecnologia e do seu progresso, se revelasse como aquilo que verdadeiramente é: uma criança assustada no escuro de um quarto desconhecido.

Em poucos minutos, filas formaram-se em caixas eletrônicos inoperantes, buzinas ecoaram de carros imobilizados, olhares vagos se perderam diante de telas negras de celulares sem vida. Era como se o Grande Irmão do clássico livro 1984, de George Orwell, tivesse tirado férias, deixando seus súditos entregues ao próprio vazio. Algo digno de um episódio da iconoclasta série Black Mirror.

Sem energia, sem Wi-Fi, sem identidade, sem função, portugueses e espanhóis descobriram que a tecnologia não nos tirou da caverna de Platão, mas nos confinou ainda mais profundamente nela. O que vemos ao nosso redor sem o poder da energia elétrica e dos metadados são apenas sombras diante das quais nos tornamos figuras patéticas, ansiosas por uma notificação de algum aplicativo. Afinal, quem somos nós sem os 4G, as senhas, os perfis nas redes sociais?

No cinessérie Matrix, bastava desligar a fonte de energia para a realidade desmoronar como um castelo de cartas. Na animação Wall-E, os seres humanos são retratados como se atravessassem o futuro em processo lento de decomposição, afundada no conforto digital. Hoje, sem eletricidade, somos incapazes até de pedir um café sem escanear um QR Code. Poderíamos mesmo chamar isso de progresso?

Como personagens de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, abraçamos de bom grado nossa domesticação digital. Não precisamos mais pensar, nem sentir: basta consumir doses constantes de distração, aceitando o entretenimento como substituto da liberdade. A servidão, anestesiada, tornou-se tão confortável que poucos ainda desejam despertar.

Não é de se estranhar se em breve alguém sugira, como Jonathan Swift previu em seu clássico Modesta Proposta, lançado no início do longínquo século XVIII, que comamos nossos dispositivos digitais, até que máquina e homem se fundam em um só organismo e assim se resolva o problema que parece estar se tornando nossa fome por conexão. Afinal, parece que ficar sem bateria é mais insuportável do que ficar sem alimento ou abrigo. Aliás, parece que Elon Musk já propôs algo parecido.

O blecaute europeu serviu como um curto-circuito de realidade. Em minutos, voltamos a ser criaturas frágeis, desnorteadas e incrivelmente dependentes de uma infraestrutura invisível da qual pouco sabemos e menos ainda controlamos. Ficamos expostos, sem dados, sem luz, sem rumo.

Mas que ninguém se engane: a escuridão não gerará reflexão. Pouco mais de seis horas depois do apagão, os servidores voltaram a piscar, o Wi-Fi voltou a espalhar sua morna carícia e todos fingiram que nada aconteceu. Seguiremos navegando alegremente rumo ao iceberg enquanto vamos tirando selfies no convés do Titanic digital. Afinal, desconectar é muito mais apavorante e atemorizador do que o próprio apocalipse que claramente se avizinha no horizonte. Mas a gente não vê porque mantemos nossas cabeças baixas para seguirmos olhando fixos para nossas telas particulares.

*Rodrigo Segantini é advogado, professor universitário, mestre em psicologia pela Famerp.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.