quarta-feira, 24 junho, 2026

spot_img

TOP 5 DESTA SEMANA

Notícias Relacionadas

Artigo: Celebração da ignorância

O presidente que vive torturando a língua portuguesa virou <em>doutor honoris causa</em> também na Malásia

Por: Augusto Nunes*

Lula é o único presidente da República que nunca leu um livro, acha leitura pior que exercício em esteira e, quando escreve ou discursa, submete a língua portuguesa a medonhas sessões de tortura. Como isto aqui é o Brasil, nenhum chefe do governo brasileiro ganhou mais títulos de doutor honoris causa que o Exterminador do Plural: já são pelo menos 37. O primeiro foi-lhe entregue em janeiro de 2011 pela Universidade Federal de Viçosa. O mais recente alegrou, neste fim de outubro, uma das escalas de outro passeio por terras estrangeiras. Fantasiado de fidalgo português dos tempos do Descobrimento do Brasil, o único presidente que não escaparia de um zero com louvor na prova de redação do Enem recebeu da Universidade Nacional da Malásia o título de Doutor Honoris Causa em Filosofia e Desenvolvimento Internacional do Sul Global.

Em Viçosa, a reitora em exercício Nilda de Fátima Ferreira Soares convidou o homenageado a assinar um Livro de Ouro que registra a passagem de visitantes ilustres. O doutor achou que uma assinatura era pouco. E a UFV foi premiada com um manuscrito de Lula — raridade que, como a ararinha azul, demora alguns anos para dar as caras. Sem correções nem retoques, a coluna transcreve o documento histórico: “Para os amigos e amigas da UFV com agradecimento pelo trabalho prestado ao povo brasileiro com educação de qualidade, garantindo ao povo brasileiro a certeza de bons profissionais para atender o desenvolvimento do nosso querido Brasil. Abraços do amigo Lula. Sem medo de ser feliz”. Somadas ao título de doutor honoris causa, as 45 palavras rabiscadas confirmam que até reitores apoiam a celebração da ignorância.

“Para os amigos e amigas da UFV com agradecimento pelo trabalho prestado ao povo brasileiro com educação de qualidade, garantindo ao povo brasileiro a certeza de bons profissionais para atender o desenvolvimento do nosso querido Brasil. Abraços do amigo Lula. Sem medo de ser feliz” | Foto: Reprodução

Apesar do buquê de redundâncias, das vírgulas guilhotinadas e da profundidade da mensagem (tão rasa que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiga poderia atravessá-la com água pelas canelas), a platitude eleva-se à categoria de texto literário se confrontada com o manuscrito de estreia, também reproduzido sem retoques:

“Ao querido Dogival com a esperança que em um futuro bem próximo possa compreender a nossa luta. Abraço do titio Lula. Cubatão, 07/11/81” | Foto: Reprodução

Ao rabiscar as 22 palavras, Lula fez mais que cumprimentar um sobrinho aniversariante. Também fuzilou uma preposição, degolou três vírgulas, demitiu um acento agudo e confirmou que quem foge da escola tem letra de pior aluno do Jardim de Infância. Depois dessa mensagem, os garranchos titubeantes de quem trocou salas de aula por estilingadas em passarinhos mergulharam na clandestinidade. Em dezembro de 2005, a ararinha-azul da caligrafia reapareceu em 19 palavras rabiscadas numa folha de papel. Avistada pelo repórter Alan Marques e capturada por um fotógrafo do Globo, foi exposta à visitação pública na primeira página do jornal.

“Tem demandas do Conselho que precisa ser discutido” | Foto: Reprodução

Como se vê na reprodução acima, a raridade se divide em dois tópicos. O segundo agrupa anotações quase indecifráveis e pouco relevantes. Valioso é o primeiro: “Tem demandas do Conselho que precisa ser discutido”. Não é fácil juntar numa só frase um verbo inadequado, um erro de concordância e dois assassinatos do plural. Lula conseguiu. Menos de dois meses depois de ter assassinado a língua portuguesa numa carta escrita ao parceiro Wagnão (Wagner Santana, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC), Lula retomou a sequência de atentados contra o idioma, agora com um bilhete de 11 linhas sem destinatário definido. As correções no original, reproduzidas abaixo, atestam que o autor cometeu pelo menos oito crimes, alguns dos quais hediondos. Um exemplo: em vez de “Haddad”, rabiscou um “Hadad”.

Carta escrita a Wagner Santana, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC | Foto: Reprodução

Num vídeo que há muito tempo faz sucesso na internet, Lula confessa ao diretor de teatro Flávio Rangel que não estudou por preguiça. “Sempre fui muito preguiçoso”, reitera com a candura de quem admite ter cometido o mais irrelevante pecado venial. Feliz com a festinha à fantasia na Malásia, fez de conta que analfabetos são os outros, nunca um doutor honoris causa, e fingiu que ignorância não tem nada a ver com preguiça. Transcrevo sem correções: “As pessoas que são analfabeta não são analfabeta por sua responsabilidade. Essas pessoa ficaram analfabeta porque este país nunca teve um governo que se preocupasse com a educação”. Nos últimos 25 anos, o bando do PT governou o Brasil por quase 17. Lula acha pouco. Aos 80 anos, comunicou que quer mais cinco no Palácio do Planalto.

Tenham juízo, brasileiros.

*Augusto Nunes é jornalista e Integrante do Conselho Editorial de Oeste, foi redator-chefe da revista Veja e diretor de redação do Jornal do Brasil, do Estado de S. Paulo, do Zero Hora e da revista Época. Atualmente, é colunista da revista Oeste e integrante do programa oeste Sem Filtro. Apresentou durante oito anos o programa Roda Viva, da TV Cultura.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.