sábado, 6 junho, 2026

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Artigo: Patriotismo de exportação

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

A cena poderia estar num daqueles museus de cera americanos onde turistas tiram fotos ao lado de presidentes, generais e celebridades. Um Bolsonaro em Washington, cercado de bandeiras estrangeiras, explicando a autoridades americanas como o Brasil deveria resolver seus problemas. A diferença é que não era um boneco. Era o senador Flávio Bolsonaro, candidato a presidência.

Durante viagem aos Estados Unidos, o filho mais velho do ex-presidente defendeu que o PCC e o Comando Vermelho  sejam enquadrados pelo governo americano como organizações terroristas. O argumento é simples: trata-se de facções violentas, responsáveis por tráfico, assassinatos e pela expansão do crime organizado. Até aí, pouca controvérsia. A novidade está em quem foi convidado a participar da solução.

Ao longo dos últimos anos, a família Bolsonaro transformou Washington numa espécie de extensão simbólica de Brasília.

Quando surge um impasse político, uma investigação desconfortável ou uma disputa institucional, não demora para aparecer algum emissário da família em solo americano buscando interlocutores dispostos a exercer pressão sobre o Brasil.

É uma curiosa concepção de soberania nacional.

O movimento de Flávio segue uma tradição familiar. Eduardo Bolsonaro passou anos cultivando relações com setores da direita americana, participando de eventos, reuniões e articulações que frequentemente tinham o Brasil como tema principal e os brasileiros como espectadores secundários. A pátria amada parecia sempre precisar de um intérprete em inglês.

A classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas certamente produziria efeitos jurídicos e financeiros relevantes. Mas também abriria espaço para uma atuação mais ampla dos Estados Unidos em questões que, até aqui, pertencem ao campo da segurança pública brasileira. O combate ao crime organizado deixaria de ser apenas um problema nacional para se tornar um tema enquadrado pelos interesses estratégicos de uma potência estrangeira.

Nada disso significa complacência com criminosos. O ponto é outro. Ninguém discute se PCC e Comando Vermelho devem ser combatidos. A pergunta é quem conduz a batalha e sob quais regras.

A contradição é especialmente interessante porque vem justamente de um grupo político que construiu sua identidade sobre a defesa da soberania, da pátria e da rejeição a interferências externas. No discurso, o Brasil acima de tudo. Na prática, uma recorrente disposição de recorrer a Washington quando as circunstâncias apertam.

Enquanto isso, setores do agronegócio — frequentemente sensíveis a tensões diplomáticas e comerciais — seguem entre os mais fiéis apoiadores do bolsonarismo. É uma relação curiosa: mesmo quando ruídos internacionais podem gerar custos econômicos concretos, a adesão permanece praticamente intacta. Como certos casamentos longos, já parece funcionar por hábito.

Mas talvez o aspecto mais revelador não esteja na proposta em si. Está no timing.

Em Brasília, o noticiário recente tem sido ocupado por questionamentos envolvendo o financiamento de um filme apontado como um dos mais caros da história do cinema nacional, com recursos vinculados ao Banco Master. O tema produz desconfortos, perguntas e poucos esclarecimentos.

Nesse contexto, a viagem americana surge como uma pauta capaz de reorganizar as atenções, deslocar o debate e devolver à militância um assunto mais familiar: a guerra permanente contra inimigos externos e internos.

Toda política precisa de narrativas. Algumas precisam também de cortinas de fumaça.

No fim, permanece uma questão menos cinematográfica e mais objetiva. O que fortalece mais a soberania de um país: desenvolver instituições capazes de enfrentar seus próprios problemas ou buscar, periodicamente, a tutela política de uma potência estrangeira?

É uma pergunta desconfortável. Talvez por isso continue sem resposta.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.