terça-feira, 26 maio, 2026

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Jogando Limpo – A Copa que começa no álbum

Por: Rodrigo Panichelli*

Antes da bola rolar na Copa do Mundo, ela já quica leve, nostálgica e irresistível nas mãos de quem abre um pacotinho de figurinha.

O Mundial, como sempre, começa muito antes do apito inicial. Começa no barulho do plástico sendo rasgado, no cheiro do papel recém-impresso, na matemática improvável de repetir três vezes o mesmo lateral da seleção que a gente mal conhece. Começa, sobretudo, na infância que a gente nunca abandona.

Neste fim de semana, o álbum ganhou as ruas do Brasil — e em Taquaritinga não foi diferente. Bancas cheias, grupos se formando, a velha e boa liturgia do “tem repetida?” ecoando como um hino paralelo da Copa.

Porque o álbum é mais do que coleção. É rito.

Em 2026, ele vem com novidades que mostram como o futebol muda — mas também como insiste em permanecer o mesmo. Os pacotinhos, que antes vinham com cinco cromos, agora trazem sete. Mais seleções, mais jogadores, mais histórias para contar. Mais chances de alegria… e de repetir aquela figurinha que já apareceu três vezes no mesmo dia.

As lendárias também seguem firmes, quase como relíquias modernas: versões em bronze, prata, ouro e lilás. Não é só completar o álbum — é garimpar. É sentir-se um arqueólogo da própria paixão.

E tem ainda as figurinhas que surgem onde menos se espera, nos rótulos de refrigerante, nas promoções que fazem o futebol invadir o cotidiano.

Sem falar nas lendas. Figurinhas que não são apenas jogadores — são capítulos da história. Como Ronaldo Nazário, o eterno Fenômeno, que para muitos nunca deixou de estar em campo. Ele não cabe só no álbum. Cabe na memória afetiva de quem viu, vibrou e nunca esqueceu.

E talvez seja esse o maior gol do álbum: atravessar gerações.

Quem cresceu nos anos 70, 80 e 90 sabe. Sabe do álbum levado na mochila, das trocas no recreio, das negociações mais intensas que qualquer janela de transferências. Sabe que completar um álbum era, de certa forma, completar um pedaço da própria infância.

E sabe também que essa vontade não passa.

Ela se transforma. Se multiplica.

Aqui em casa, por exemplo, ela virou desafio logístico. Com trigêmeos — Ana, Joaquim e Vicente — não há VAR que resolva: serão três álbuns. Não por luxo, mas por sobrevivência familiar. Porque dividir figurinha rara é mais difícil do que explicar regra de impedimento.

E, no fim das contas, pouco importa se o álbum vai ficar completo.

O que importa é o caminho. As trocas, as risadas, as pequenas frustrações, as grandes conquistas. Importa perceber que, mesmo em um futebol cada vez mais acelerado, tecnológico e, às vezes, confuso, ainda existem espaços onde ele é simples.

Tão simples quanto colar uma figurinha.

A Copa de 2026 ainda vai começar.

Mas, para muita gente, ela já está acontecendo — página por página.

E, convenhamos, talvez seja aí que ela seja mais bonita.

* Rodrigo Panichelli é apaixonado por futebol e colaborador de O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.