quarta-feira, 29 abril, 2026

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Artigo: Falta vergonha na cara

O que há com o Brasil que não reage à chegada dos idiotas ao poder?

Por: Augusto Nunes*

Nunca vi meu pai mergulhado em leituras. Saltava páginas dos livros que empunhava de vez em quando, só folheava o jornal e, forçado a aumentar os rendimentos como professor de Geografia, limitava-se a passar os olhos pelas folhas preenchidas pelos alunos nas provas mensais. Em seguida, desenhava no alto do canto direito da folha manuscrita um 7 ou um 8. “Não quero reprovar ninguém”, explicou-me Adail Nunes da Silva quando perguntei quais eram os critérios que usava. “Dou essas notas porque não reprovam ninguém, mas também avisam que eles não sabem tudo. Quem ganha um 9 ou um 10 para de estudar no minuto seguinte.” E por que a metodologia tratava tão bem os que não sabiam nada? “Esses não têm jeito”, encerrou o assunto.

Embora tenha estudado em escolas medíocres, ele se diplomou em Economia e Direito e aprendeu a escrever ou falar sem erros. Na juventude, divertia os amigos com o inesgotável repertório de contador de casos. Ao estrear no palanque com menos de 30 anos, mostrou que já estava pronto o extraordinário orador de comício. Além do extenso vocabulário, impressionava a ausência de agressões à língua portuguesa. Não escorregava nem mesmo quando resolvia exibir-se para plateias menores com o uso da segunda pessoa do plural. E lá vinha, sem tropeços, o desfile de “vós sabeis”, “estais aqui” e outros refinamentos.

Depois de um comício, quis saber como aprendera a dominar a arte do discurso improvisado. “Ouvindo pelo rádio os melhores”, ele desfez o mistério. Informou que nunca perdeu qualquer show de retórica protagonizado por gente como Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Oswaldo Aranha, Afonso Arinos e outros tribunos. “Pena que ministros do Supremo não possam manifestar-se no rádio”, lamentou. “Gostaria demais de ouvir nas emissoras de rádio ministros como Evandro Lins e Silva e Nelson Hungria”, exemplificou. “Quem já ouviu esses e outros saiu muito impressionado. Mas juiz só fala nos autos”, lastimou o homem que lapidara a vocação num curso radiofônico longo e intensivo, ministrado por sumidades que não existem mais. Os idiotas monopolizam a TV Justiça.

A morte poupou-o de amargurar-se com a era da mediocridade. O primeiro quarto do século 21 conferiu dimensões medonhas à descoberta de Nelson Rodrigues: os idiotas perderam o pudor e estão por toda parte. Dão as cartas no Poder Executivo, informa a terceira passagem pelo Planalto de um espertalhão analfabeto. Babam na gravata no Congresso: com Hugo Mota na Câmara e Davi Alcolumbre no Senado, a zona de turbulência está muito longe do fim. E fazem o diabo no Judiciário. Sob a liderança do decano Gilmar Mendes, a Ala Jovem do Supremo Tribunal Federal atropela a gramática e a ortografia nos autos ou fora deles, mete-se em assuntos que ignora e comete um abuso a cada meia hora. Pior: os frutos da idiotia epidêmica têm tempo de sobra para completar o trabalho de destruição iniciado há seis anos pelo parto do Inquérito do Fim do Mundo.

O que há com o Brasil decente que não se espanta com nada? A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, embolsou R$ 3,6 milhões por mês para garantir o apoio do marido ao vigarista Daniel Vorcaro. A advogada Roberta Rangel, mulher de Dias Toffoli, foi sócia do Warde Advogados, um dos escritórios contratados pelo Banco Master. O time do doutor Walfrido Jorge Warde Júnior, aliás, acolhe até jornalistas cujas piruetas político-ideológicas reduziram a conversão do apóstolo Paulo a uma mudança tão irrelevante quanto deixar de torcer pelo Jabaquara para matar e morrer pela Portuguesa Santista.

Na festa de aniversário da chegada de Dias Toffoli ao STF, o homenageado emocionou-se. “As pessoas nem sabem que nosso trabalho é difícil e importante”, choramingou, com uma lágrima pendurada no canto de cada olho. “É um orgulho estar junto com os maiores juristas do país.” O próprio Toffoli foi reprovado duas vezes no concurso de ingresso na magistratura paulista. Outro “grande jurista”, Alexandre de Moraes, fora o que vem fazendo na Vara Criminal que criou, agride o idioma com expressões como “há vinte dias atrás”. (Tire o “há”, ministro. Ou tire o “atrás”. Ou, melhor ainda, tire a toga).

Como é que uma turma assim amedronta tantos brasileiros? O que há com o Congresso que não enquadra na Constituição e na lei comum os abusadores que prendem e arrebentam vidas e normas milenares para fortalecer essa democracia à brasileira? Sim, como ensinou William Shakespeare, não há noite tão longa que não encontre o dia. Sim, medida pelo tempo histórico, a ditadura do Judiciário não demorará a parecer um nada. Mas o calendário gregoriano alerta: é muito tempo amputado das nossas vidas. Vêm aí as eleições. Basta que a oposição repita o desempenho de 2024 para formalizar a troca da guarda e colocar o país no rumo certo.

O presidente do STF, Edson Fachin, acha necessária a elaboração de um código de ética para frear os ímpetos e excessos da instituição. Sugiro uma adaptação da curta e perfeita Constituição criada pelo historiador Capistrano de Abreu:

Art. 1°: Todo ministro da corte  fica obrigado a ter vergonha na cara.

Art. 2°: Revogam-se as disposições em contrário.

Texto originalmente publicado na Revista Oeste!

*Augusto Nunes é jornalista e Integrante do Conselho Editorial de Oeste, foi redator-chefe da revista Veja e diretor de redação do Jornal do Brasil, do Estado de S. Paulo, do Zero Hora e da revista Época. Atualmente, é colunista da revista Oeste e integrante do programa oeste Sem Filtro. Apresentou durante oito anos o programa Roda Viva, da TV Cultura.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.