quinta-feira, 30 abril, 2026

spot_img

TOP 5 DESTA SEMANA

Notícias Relacionadas

Artigo: Biu-biu – prometeram vendaval, entregaram vibração de WhatsApp

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Lula, se não inventar moda até a eleição, navega com um vento tão favorável que daria inveja a qualquer barqueiro do Velho Chico. A economia, que já foi uma jamanta (de greve) desgovernada, agora desfila com a autoestima de cruzeiro europeu em mar de azulejo.

A taxa de desemprego caiu para 5,4% — a menor desde 2012 — e o trimestre trouxe recordes de carteira assinada, de rendimento, de expectativa e, quiçá, de brasileiros que finalmente podem assistir jornal sem precisar de maracugina.

O Brasil, segundo o IBGE, fechou outubro exibindo números que fariam até o ministro da Fazenda mais sisudo sorrir de canto de boca. O desemprego caiu de 5,6% para 5,4% no trimestre — não é milagre, é estatística, mas em ano eleitoral dá no mesmo. Em 2020 e 2021, no auge da pandemia, o país carregava 14,9% de desocupados. Hoje são 5,91 milhões — o menor contingente da série histórica.

O grupo dos ocupados chegou a 102,5 milhões, outro recorde, como se o Brasil tivesse decidido, num rompante de responsabilidade, colocar o crachá e ir trabalhar. O exército com carteira assinada também engordou: 39,182 milhões. A massa salarial chegou a R$ 357,3 bilhões — número que faz até analista cínico ajeitar o blazer antes de comentar no telejornal.

Lula, consciente de que esta é sua última dança no salão eleitoral, chega ao baile com uma combinação improvável: inflação no centro da meta, juros em tendência de queda, PIB crescendo e desemprego nas mínimas. FMI e Austin Ratings já avisaram que o país passou o Canadá — não que os canadenses liguem, mas brasileiro adora um troféu moral.

A verdade, dita sem poesia, é uma só: o campo progressista recolocou o país nos trilhos. Gostem ou não, os números estão aí — frios, impassíveis, debochados — lembrando que a realidade costuma ser indelicada com narrativas.

Na virada do ano, enquanto os pessimistas contavam regressivamente para 2025, apostando numa inflação de 6%, o índice estacionou em 4,4%. Dentro da meta, dentro da margem, dentro do conforto. Alguns especialistas, já animados, até cochicham que pode fechar o ano mais baixo.

A Bolsa de Valores, por sua vez, viveu seu próprio surto de euforia. Outubro de 2025 fechou em 148.780 pontos; novembro romperia 158 mil; dezembro, triunfal, cravou 161.092 pontos — uma tríade digna de porta-bandeira em apoteose. Tudo abastecido pela fé nos cortes da Selic e na promessa de estabilidade fiscal. O mercado, veja só, sorrindo para Lula.

A ironia fina fica com a inflação de alimentos. Os doutores previam 8%, talvez 9%. Ela entregou 1,35%. Um milagre tão improvável que merecia sua própria sala no Museu Nacional: Fenômenos Paranormais do Arroz com Feijão.

O dólar, que começou o ano urrando em 6,18 e ameaçando chegar a 7, resolveu se comportar e estacionou nos 5,35. Caiu mais que atleta de crossfit fingindo lesão.

A teoria econômica, coitada, perdeu a vez. Com juros de 15% e juros reais de 10%, o país deveria estar numa recessão de livro-texto. Mas o PIB do terceiro trimestre deve vir positivo em 0,2% — pouca festa, pouco velório.

E o mercado de trabalho, a heresia final: com esse juro, o desemprego deveria explodir. Mas caiu. O dado de 5,4% virou um tapa sem mão na testa dos manuais.

A fauna dos comentaristas se dividiu: uns dizem que 400 mil pessoas sumiram do mercado — viraram figurantes de novela que deixam o elenco sem explicação. Outros juram que não houve desalento: houve, sim, famílias respirando melhor e gente largando o batente para estudar — luxo tropical raríssimo.

No fim, o Brasil termina o ano fiel a si mesmo: desmentindo economistas, confundindo apostadores e obrigando colunistas a reescrever seus textos. Tudo normal. E nós avisamos — biu-biu.

A autoanálise — esse esporte radical — insiste em cutucar Taquaritinga: por que, diabos, a cidade vive em fuso próprio, incapaz de embarcar no bonde do Brasil? Uma teoria, velha como a praça da Matriz, aponta para as oligarquias do atraso, ainda instaladas nos centros de poder como se o século XX tivesse pedido música no rádio e não tivesse parado.

A outra teoria, prima-irmã da primeira, diz que Taquaritinga virou especialista em não criar oportunidades. Um hub involuntário de exportar cérebros — os melhores vão embora. A cidade fica. Firme. Observando o progresso como quem olha um trem de carga: com distância, filosofia bolsonarista e zero vontade de experimentar o campo progressista. Quem sabe os ventos soprem e algo mude, quem sabe….

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.