terça-feira, 28 abril, 2026

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Nossa Palavra – O papel da ONU no século XXI: ainda há relevância?

Entre a diplomacia e a impotência, a Organização das Nações Unidas enfrenta o maior teste de sua história

Em 24 de outubro, o mundo celebra o Dia das Nações Unidas, marco da criação, em 1945, da instituição que nasceu com a promessa de impedir que as tragédias da Segunda Guerra Mundial se repetissem. A Organização das Nações Unidas (ONU) foi concebida como guardiã da paz, da segurança e da cooperação entre os povos. Contudo, oitenta anos depois, é legítimo perguntar: a ONU ainda cumpre o papel para o qual foi criada?

O século XXI trouxe desafios que os fundadores da ONU jamais imaginaram. Guerras híbridas, desinformação em escala global, crise climática, migrações forçadas, desigualdades econômicas extremas e a crescente ascensão de governos autoritários colocam à prova a capacidade da instituição de agir com eficácia e legitimidade. O mundo mudou — e a ONU, em grande parte, permaneceu prisioneira de uma estrutura concebida para o pós-guerra, onde o poder de veto de cinco países (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) ainda define o que pode ou não ser feito.

Esse anacronismo institucional tornou-se o maior obstáculo à relevância da ONU. A cada conflito internacional — da Ucrânia ao Oriente Médio, passando pela África e pela América Latina — assistimos à paralisia do Conselho de Segurança, incapaz de agir de forma imparcial. As potências vetam resoluções que não lhes convêm, transformando a diplomacia global em um tabuleiro de interesses. Em vez de símbolo de consenso, a ONU frequentemente se converte em palco de disputas políticas e demonstrações de poder.

Ainda assim, seria injusto afirmar que a ONU é irrelevante. Em áreas como direitos humanos, ajuda humanitária, educação, meio ambiente e saúde, seu papel permanece essencial. Organizações ligadas à instituição, como a OMS, Unicef, Unesco e Pnuma, atuam de forma concreta e transformadora, salvando vidas, promovendo inclusão e denunciando violações. A ONU é, ao mesmo tempo, indispensável e insuficiente — e é nessa contradição que reside sua complexidade.

O desafio, portanto, não está apenas em criticar, mas em repensar. O mundo precisa de uma ONU reformada, representativa, capaz de ouvir as vozes do Sul Global e de se adaptar às novas dinâmicas internacionais. É inconcebível que, em 2025, países da África e da América Latina continuem à margem das grandes decisões mundiais. A promessa de igualdade entre as nações permanece, na prática, um ideal distante.

Além disso, a ONU enfrenta um dilema moral. Sua força depende da credibilidade — e esta só existe quando suas ações são coerentes com seus princípios. Quando a instituição se cala diante de atrocidades ou se limita a emitir notas de “profunda preocupação”, o mundo questiona: de que serve uma organização que não tem poder para impedir o sofrimento humano? O silêncio, nesses casos, grita mais alto do que as resoluções.

Contudo, o esvaziamento da ONU não interessa a ninguém. Sem ela, o planeta mergulharia em um vácuo diplomático perigoso, onde prevaleceriam a lei do mais forte e o isolamento das nações. A ONU continua sendo a única mesa onde todos os países, grandes ou pequenos, têm voz — mesmo que essa voz, muitas vezes, seja abafada. O que falta é coragem política para transformar essa voz em ação.

Em tempos de polarização e descrédito das instituições, defender a ONU não significa aceitar sua inércia. Significa reconhecer sua importância e exigir sua reconstrução. A organização precisa voltar a ser um espaço de diálogo efetivo, de decisões transparentes e de compromisso real com os direitos humanos e a paz. Isso implica rever o poder de veto, reformar o Conselho de Segurança e fortalecer o papel da Assembleia Geral, onde a pluralidade de vozes ainda resiste.

O futuro da ONU — e, por extensão, o futuro da cooperação global — dependerá da capacidade de reinventar-se diante das novas realidades. A humanidade não pode mais se dar ao luxo de confiar em estruturas ultrapassadas. O planeta clama por soluções conjuntas para crises que não conhecem fronteiras: climáticas, migratórias, humanitárias e políticas.

Mais do que celebrar o aniversário da ONU, outubro deve ser um mês de reflexão profunda sobre o papel de cada país e de cada cidadão nesse sistema internacional em crise. A paz, a justiça e o respeito mútuo não são apenas bandeiras diplomáticas: são condições básicas de sobrevivência.

Porque, se a ONU perder de vez sua relevância, quem falará em nome da humanidade?