Por: Gustavo Antonio Ascencio*
Durante certo tempo de minha pré-adolescência, todo sábado de manhã, após a catequese, eu e meu pai parávamos em uma papelaria na praça Dr. José Furiati – ou Praça do Hospital, como eu e os meus a chamamos. Hoje a Papelaria Mec não existe mais, mas, caso pergunte por ela a meia dúzia de pessoas, tenho certeza de que alguns terão uma memória ou outra sobre o lugar. Eis a minha.
Bem, como dizia, depois de conhecer um pouco mais sobre as agruras de Cristo, descíamos pela Matriz, passávamos a Santa Casa e lá chegávamos. Lembro-me de aguardar ansiosamente durante o trajeto, vendo os quarteirões correrem pela janela do escort branco do meu pai. O motivo era muito simples: naquele momento da história, a papelaria Mec era reduto do maior acervo de livros da Série Vaga-lume de que eu tinha conhecimento. Nisso, todo sábado éramos atendidos por um senhorzinho que minha memória, hoje, é incapaz de reconstruir; todo sábado meu pai comprava para mim um livro novo, cuja sôfrega leitura seria motivo para que, na semana seguinte, o mesmo evento se repetisse.
Não sei quantas semanas isso durou precisamente. Sei que acompanhei o paranormal Dico Saburó em sua perseguição ao temível Spharion; investiguei o mistério do 5 Estrelas (e tantos outros!) ao lado de Leo e a turma do bairro do Bexiga; voei com a trôpega Atíria em um sinistro bosque assombrado por malévolas corujas; vivi histórias que até hoje constituem o meu (in)consciente, encarnei personagens, vesti minhas primeiras máscaras. E me deliciava com tudo isso, obviamente.
Até que, num sábado como qualquer outro, crente de que iria voltar para casa com mais um exemplar para ser devorado, o velhinho finalmente segreda ao meu pai que eu era o seu único cliente no que se referia aos livros e, portanto, lança uma proposta: por que não levar todo o seu o estoque com um belo desconto?
Fomos aos fundos da papelaria. Tenho em minha mente flashs de uma enorme prateleira empoeirada e um tanto bagunçada. Lá estavam eles, enfileirados, me esperando. Naquela manhã o escort voltou lotado de alegria e mais de cem livros.
Nunca perguntei ao meu pai o preço daquela compra, nem o seu peso dentro do orçamento de um nobre mecânico que, durante toda a sua vida no chão de oficina de uma usina de açúcar, encheu quatro bocas e criou com dignidade dois filhos. Apesar disso, espero que ela saiba o valor que esse momento teve para mim. Obrigado, pai, isso mudou minha vida.



