Por: Rodrigo Segantini*
Quando Vanderlei Mársico foi afastado do cargo de prefeito por determinação judicial, pareceu para muitas pessoas que chegaria um tempo de alento para a cidade. Não vou me atrever a dizer que a culpa pela sombra negra que pairava sobre Taquaritinga era responsabilidade de Vanderlei, mas havia um senso comum de que sua permanência na liderança da Municipalidade dificultava o aclaramento do céu, que oferece um horizonte sem igual, como diz a letra da linda música de Dino Franco e Mouraí, cantada nas sacadas de Fazenda Contendas. Pois bem, a decisão da Justiça não se discute, cumpre-se e recorre-se.
Dito e feito, com Vanderlei afastado, vivemos um episódio de Game of Thrones, com passagens dignas da chamada Batalha dos Bastardos, com flechas sendo disparadas por todos os lados. Mais do que isso, parecíamos que estávamos na Batalha de Winterfell, aquele em que as cenas são tão escuras, que mal dava para ver o que acontecia na luta entre os caminhantes brancos e os aliados da família Stark. O vice assume, o vice desiste; o presidente da Câmara recua, nem chega a assumir e renuncia; o procurador assume temporariamente e faz o que dá para fazer… até que Luciano Azevedo vai para o abate e aceita o sacrifício de se sentar no Trono de Ferro, forjado a partir de espadas inimigas e que retalham aos poucos a autoridade que o ocupa.
Luciano Azevedo ficou no cargo por cerca de dez meses. Dez meses são mais ou menos 300 dias. Durante esse tempo, a população esperava que algo fosse feito pela cidade. Na verdade, o povo esperava que pelo menos uma coisa fosse feita pela cidade: que a caixa-preta onde estariam guardados os maiores segredos sobre tudo de ruim que estaria assolando Taquaritinga fosse finalmente aberta para que enfim fosse revelado quem são os responsáveis pelas mazelas que estávamos sofrendo. 300 dias e nada aconteceu. Em parte porque Luciano esteve preocupado em salvar a própria pele, já que, como prefeito, passou a ser responsável também pelo fogo que consumia a cidade (o que é irônico, já que ele é bombeiro por ofício); por outra parte, porque ele estava preocupado em garantir sua permanência no Paço Municipal, já que concorreu na disputa ao cargo que ocupava interinamente. Ao que parece, ele não teve êxito em nenhuma destas duas empreitas…
Embora sequer se tenha certeza se de fato há uma caixa-preta para ser aberta, se há algum segredo que mereça ou deva ser revelado, o fato é que isso é algo que os taquaritinguenses desejam que seja finalmente esclarecido. A verdade é que, se houver, pode nem ser uma caixa-preta, mas uma caixa de Pandora, daquelas que não compensa que seja aberta para não libertar o Mal que está aprisionado nela. De qualquer forma, há ações judiciais em andamento e não cabe a mim, como um mero rabiscador de rascunhos de tentativas vãs de artigos mal-escritos, tentar dizer, adivinhar ou definir o que pode acontecer com a cidade diante de tudo o que temos passado. Não me arrisco a vidências.
Porém, se Luciano teve 300 dias e não conseguiu dizer a que veio, parece-me um tanto injusto esperar que em 100 dias Fulvio Zuppani conseguisse tal proeza. Em uma acanhada audiência em que pretendeu expor o que encontrou, o prefeito e sua turma pouco teve a apresentar, pois, afinal, pouco encontrou. Não apenas por culpa de seus antecessores, mas a Prefeitura estava como terra arrasada. Portanto, uma exposição do que foi achado pela atual gestão naturalmente seria algo vazio e inócuo. Ainda assim, o povo queria ver alguma coisa, queria saber o que estava acontecendo e também o que seria feito.
Apesar de todo o blábláblá, nada foi dito. Como confete em um baile de carnaval, que jogado para o alto logo vai ao chão, os atuais ocupantes da Prefeitura jogaram para cima um monte de papel picado e ninguém conseguiu ver o que de fato estava sendo mostrado. Uma estratégia ousada para que não fosse percebido que pouco havia para se mostrar. No entanto, o povo percebeu e se aborreceu. Esperavam mais do dr. Fulvio…
Isso, entretanto, não deve nos aborrecer. Já falei antes e repito: 100 dias é muito pouco. Para ficarmos em um exemplo recente, Luciano Azevedo teve 300 e não conseguiu. Esse costume antigo de que o prefeito deve prestar contas de seus primeiros 100 dias, no caso presente, não deve ser levado a sério. Isso pode funcionar em cidades que estão com sua administração em ordem. Não é o caso aqui de Taquaritinga. Dr. Fulvio não tem que provar nada nestes 100 primeiros dias, nem a cada 100 dias, o que ele tem que provar é no dia-a-dia, é todos os dias.Não precisamos de audiências públicas, nem de satisfação. Mas precisamos da cidade limpa, dos fornecedores e das folhas em dia e das contas saneadas. Dr. Fulvio por enquanto tem crédito. Se fez valer o voto de confiança, só o tempo dirá. Aguardemos os próximos capítulos…



